quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Blá Blá


-Tenho que te avisar que hoje eu não vou fazer sexo contigo.
-Hoje?
-Sim, hoje não.
-Porquê?
-Porque é o que eles pensam que vamos fazer. Assim que entrei no teu carro eles já sabiam isso.
-E se eles não pensassem isso?
-Poderíamos.
-Queres ir perguntar a eles o que pensam?
-Não, já sabia a resposta.

Ele agarrou no volante e começou a pensar. Porra, sou assim tão fácil. Porque carga de água eu queria fazer sexo contigo. Porquê? E se eu lhe dissesse que quero mais do que isso. Que a companhia dela era suficiente. Nunca me senti sujo a não ser com a tua confiança. Será que é só isso que eu quero e procuro? Não pode ser. O meu rumo e a minha viagem é paralela à minha vontade.

-Então e o que queres fazer?
-Não estava a espera que me perguntasses isso. O que quero e o que posso são diferentes. Esperava mais de ti. Esperava que não mo perguntasses. Esperava que mostrasses outras coisas. Esperava que me levasses onde não queria estar. Que me fizesses o que eu não quero.

O carro tornou-se demasiado grande. Frio. Vazio. Silencioso. Era impossível o aproximar de um degelo. Porque me estás a fazer isto? Qual é a tua intenção. A prova constante das acções, estamos sempre a ser avaliados. Avaliação começa com a saudade. Saudade de ser independente. Tenho que tentar sê-lo em relação a ti.

-Olha, cresci aqui, neste bairro. Ainda guardo algumas amizades. Tenho boas histórias. Queres ouvir alguma?
-Não. Como eras antes de te ver?
-Era livre, basicamente apenas isso. Pouco aqui estive. Gostava de estar só, porque assim é sabia lidar com as situações.
-Quais?
-Se não estivesses aqui sabia lidar com o silêncio. Contigo ou sem ti é difícil.
-Porquê comigo?
-Porque te conheci.
-Gosto de morangos.
-Morangos?
-Sim, o sabor. O paladar. A côr. A maneira como eles se esmorecem nos meus lábios. A maneira como suportam as minhas dentadas. A vulgaridade deles. Gosto da ideia de gostar de coisas vulgares.

Desesperante a ideia de estar com a companhia perfeita. O passeio perfeito. A viagem perfeita. Sem a consumação de um final previamente anunciado.

-Queres um chocolate quente?
-Isso pode ser.

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