Sempre que acordo, fico mais mal disposto do que queria,
sempre com vontade de começar tudo de novo. Sempre ser diferente daquilo que se
entra e começa. Nem sempre por esta ordem mas com alguma coisa em comum com
aquilo que não se conheça, algo de diferente. A semelhança da diferença, entre
a vida. Existem alturas em que se olha para o lado, em redor, e a dececção é
imensa. Não se gosta daquilo em que nos tornamos. Somos um reflexo do nosso
passado, entregue em ideias dementes e um diabo exorcizado, num ritual pagão.
Olhas-te ao espelho e o que vês?
Sempre na busca insana de um prazer doentio que se esconde.
Que se esconde de nós. Tiras-me do sério com a tua ausência.
Hoje. Hoje vou ter mais reuniões inadiáveis. Daquelas tão
importantes que redundem num até já. Entre viagens de carro, caos e emails. Entre
o alcatrão que se pisa, e aquele que ultrapassa, alguma coisa acaba sempre a
ficar para trás. As minhas viagens sempre foram a minha melhor terapia, o
silêncio. Entre chamadas que se rejeitam e outras que se aceitam com um breve
olá.
Sempre fui simpático telefonicamente falando. Sempre tento
ver o melhor dos dias entre as pontes que construo.
De vez em quando meto-me com as outras pessoas, ou olho ou
então coloco-me atrás dos aceleras. Acho piada quando eles vêm a aproximar-me
com o meu carro cinzento, abrandam a pensar que é a policia, ou algo do género.
Eu sei, diversões estúpidas de uma viagem solitária.
Nisso toca o telefone. Um número que desconheço por
completo. Atendo. Do outro lado.
Então? Quando me ligas?
Desculpe.
Quando é que me ligas? Estás a fazer-te de forte é isso?
Pensava que já não tínhamos idade para isso, ou que estávamos nessa fase.
Tinha passado 2 semanas que a tinha conhecido num aeroporto.
Que se tinha sentido tão calmo e numa paz celestial. Tanto ele se arrependeu de
rasgar o papel com o número dela, mas recordava-se bem do nome, demasiado bem. Do
seu olhar de camaleão, a maneira como ela fitava o olhar. A sua pronuncia que
teimava em arranhar nos “erres”. Que tentava esconder. A sua camisa branca
desabotoada, a sua pele. Tinha sido a primeira vez que tinha encontrado alguém
que conseguia conversar e trocar ideias. Ideias tão simples mas que são tão
complicadas, recordou-se de uma história antiga. Quando uma mulher muito
bonita, numa festa, chegou ao pé dele e disse-lhe que os homens eram todos
iguais, só pensavam em sexo e não tinham ideias e ele perguntou-lhe qual era a
capital do Perú. Ainda se recordava da cara dela a dizer Perú. Quando ele
colocou um ponto final dizendo, “Ideias”. Obviamente que acabou na cama com ela
e abandonou-a no dia a seguir com um bilhete simpático a dizer “Nenhum sexo deve
ser feito sem ideias, adeus.”
Estás aí? Estou. Estás a ouvir-me. Os pensamentos foram
interrompidos.
Sim.
Não respondes?
Queres que te ligue?
Sim.
Nisto, desligo-lhe a chamada e ligo-lhe de seguida.
Queres brincar é isso?
Não. Quero-te ver.
Não sei se mereces.
Como posso merecer?
Dá-me uma razão para que isso aconteça. Já te disse que me
fazes lembrar um playboy.
Eu?
A maneira como olhas, e como nunca te sentes inibido com
nada. Desculpa mas pareces.
Uma razão, é isso?
Sim, só isso.
Sou diferente.
Diferente? Do quê? Todos dizem isso.
Eu, eu sei que sou diferente da maioria. Eu sei que vejo o
mundo de maneira diferente. O meu mundo. O meu mar. Senão fosse isso,
explica-me porque me sinto sempre desalinhado, fora de tudo. Não consigo gostar
de nada. Nada me motiva. Vivo com a solidão. Sim essa bela solidão que me
alimenta, eu não sofro com ela, eu vivo com ela. O de sentir. O sofrer, sem
razão. Um mal estar permanente. Uma dor estúpida e sem nexo. Além do mais tu
és.
Sim.
Tu fitas os olhos quando queres ser levada a sério. Quando
falas do passado olhas no vazio. Desvias o olhar sistematicamente que te
enfrento. E não me perguntes a cor dos teus olhos porque simplesmente não sei,
mudam com o teu brilho e com a luz. Tens uma cicatriz no nariz, aposto que foi quando
eras miúda. Não és de Lisboa, pela tua pronúncia. Notasse que perdeste alguém e
que não sabes o que procurar, porque não tens ideia do que possa ser.
Continua.
És demasiado bonita. Demasiado perigosa para o playboy
Porque não me ligaste?
Porque deitei fora o teu número.
Desculpa?
Já sei que me vou apaixonar por ti e tu por mim. Não quero
sofrer uma vez mais e não quero fazer sofrer alguém.
A vida são dois dias.
Quando nos vemos?
Hoje?
Não estou em Lisboa. Amanhã?
18,30?
Onde?
Vamos passear no passeio de Oeiras, o que dizes? Aquilo tem
umas esplanadas maravilhosas.
Ok.
Ate amanhã.
A chamada terminou.
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