quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Nada do que escrevemos é verdadeiro

Nada mudou, nem o tom de voz, nem a raiva de te ver longe me move, nada. Nada daquilo que eu quero me decepciona ou surpreende. Sou um viciado de mim, depois digo-te. Não quero mais estas coisas tão pequenas e isoladas que me fazem sentir como tu.

Vou no meu carro. Enquanto falo contigo, no meu alta voz, olho-me ao espelho retrovisor e tento-me acalmar. Vou depressa, demasiado depressa para um erro enquanto vomitas palavras. Palavras de alegria e satisfação. A tua felicidade é palpável a minha também. Não me consegui sentir infeliz ou que tu conseguisses tal coisa. Nem aquela pontinha de inveja ridícula que é admissível. Nada. Afinal não és assim tão importante. Nada o é.

Nada me toca, nem tu. Nem mesmo tu.

Reconheço que tenho medo do que me estou a tornar. Medo de deixar de sentir aquelas coisas pequenas que nos fazem sentir vivos. Consegui tornar-me independente e amorfo. O meu sangue já não é o que era e eu esforço-me para que isso aconteça. Esforço-me imenso. Assim a minha felicidade na tua. Continuas a vomitar palavras e eu já as não oiço.

Tinhas-me ligado, no começo não percebi o telefonema. Também não quero entender, nem tão pouco o porquê de me teres ligado. Eu não preciso disso. Não preciso de ti, apenas de mim, enquanto tiver forças para me erguer. Começaste por dizer que estavas apaixonada, que eu era um vicio doloroso e que tinhas encontrado outro objetivo, que o nome dele é João e que o amavas muito mais do que aquilo poderias sentir um dia por mim, nem mesmo nos melhores momentos. Que ele não tinha medo como eu tenho. Que ele assumia as coisas e eu escondia. Que ele se lembrava das datas importantes, para ela, e eu omiti-as. Que ele a segurava na mão e dizia que a amava e eu nunca lhe disse nada. Depois começou as acusações, que a culpa era minha e que eu era doente, ou seja o normal em qualquer despedida telefónica. Ela continuava a vomitar palavras.

Eu disse-lhe que nada do que escrevemos é verdadeiro. Ela não é tão negra assim. Nem sequer sofres de mal estares gerais. Nisso tive que desviar-me de um carro e perdi a atenção. Enquanto ofendia o outro condutor e ela vomitava palavras, desliguei. O processo da separação tinha começado. Ela voltou a ligar e desligava até ela desistir.

Ainda não sei que sentimento tive.

Nada do que escrevo é real. Nada. Tenho tudo o que quero e o que não tenho compro. Agora muito mais calmo sigo viagem.

Paro numa área de serviço, começo a ver o telemóvel e mais mensagens, agora não. Estaciono o meu carro cinzento em frente à cafetaria, desligo o rádio. Saio, ajeito o casaco.


Quero um café, com adoçante sff. Sentei-me agarro no meu tablet para te enviar uma mensagem, pensei, nada do que escrevemos é verdadeiro e assim lhe escrevi  “Amo o que me toca, odeio o que me abandona, adeus Ana”.

In Public (Nacos Urbanos)

O que te falta é o que sinto



“Oferece-me um café que eu levo o açúcar e o desejo” disse-lhe ele às escondidas. Às escondidas continuou o sufoco. Não ficas secretamente orgulhosa que eu não cumpra aquilo que me pediste. Sabes porque não cumpro? Por mim, claro.



O que te falta é o que eu tenho para te dar. Eu sei. Eu posso inventar essas frases mas cimento-as com a vontade. Entra. A porta está aberta. Não a feches agora. Vou fechar os olhos e descansar um pouco. Depois conto-te. Sabes que é à noite que te procuro. A noite faz-me sentir mais vazio do que é normal.




Vou fugir um pouco.




As pessoas que me tocam são aquelas que fogem. Podem-te tocar se sentir a tua pele. Eu continuo a ver-te em todo lado. És como uma alucinação. Depois olho e não és tu. Desconfio que quando te vir vou desconfiar dos meus sentidos. Depois penso, calmamente, que isto não vai durar muito mais. O que tu não sabes é aquilo que me fazes.




Hoje vou beber, sair, ver luzes. Essas coisas que de pecado tem pouco. Vou encontrar um sítio calmo para encostar na minha paz. Sempre gostei de me sentir em silêncio. Ter que ser simpático não faz muito o meu estilo. Aliás nada faz o meu estilo. Continuo a ir aos bares do costume sem saberem o meu nome, nem eu o deles. Não quero. Mas se perguntares por mim eles vão dizer-te que estive lá.




Depois de naufragar vou ancorar numa boia. Vou-me divertir com a ondulação e vou gritar. Acabo sempre por ter conversas ocasionais com pessoas instantâneas. Sou um óptimo conversador de momentos. Invento histórias e faço um ar grave e sério. As pessoas por vezes acreditam nisso.





Oferece-me um café que eu levo qualquer coisa que justifique a minha presença!

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Viajo em mim

Um novo inverno se aproxima, aproxima-se o esgotar de tentativas. Vou tentar-te e tentar-me ser fiel a mim. Existe entre nós um espaço enorme, não consigo preencher. Um oceano de betão e poluição nos separa, nunca a tua rua tornou-se tão inalcançável. Isso já não me preocupa.

Preocupa-me viver, respirar, sossego e paz, enfim respirar. Entre os tragos da cerveja eu percorro-me e descanso, assim.

Neste novo inverno eu vou mudar de roupa e soltar o cabelo, procurar novos visuais e voltar a mim próprio depois de me usar. Vou tentar apaixonar-me, completar-me. Vou tentar viver. Tudo aquilo que me faz falta e que não sinto em mim.

Neste novo principio vou gritar, vou ser aquilo que nunca fui, ousado. Vou cumprir com os meus sonhos, devo isso a ti e falta-me em mim.

Beleza

Porra, a tua beleza magoa-me A tua calma impressiona-me A tua cara envergonha-me O teu corpo humilha-me A maneira com fal...