quarta-feira, 1 de abril de 2015

Take III


Sempre que acordo, fico mais mal disposto do que queria, sempre com vontade de começar tudo de novo. Sempre ser diferente daquilo que se entra e começa. Nem sempre por esta ordem mas com alguma coisa em comum com aquilo que não se conheça, algo de diferente. A semelhança da diferença, entre a vida. Existem alturas em que se olha para o lado, em redor, e a dececção é imensa. Não se gosta daquilo em que nos tornamos. Somos um reflexo do nosso passado, entregue em ideias dementes e um diabo exorcizado, num ritual pagão.

Olhas-te ao espelho e o que vês?

Sempre na busca insana de um prazer doentio que se esconde. Que se esconde de nós. Tiras-me do sério com a tua ausência.

Hoje. Hoje vou ter mais reuniões inadiáveis. Daquelas tão importantes que redundem num até já. Entre viagens de carro, caos e emails. Entre o alcatrão que se pisa, e aquele que ultrapassa, alguma coisa acaba sempre a ficar para trás. As minhas viagens sempre foram a minha melhor terapia, o silêncio. Entre chamadas que se rejeitam e outras que se aceitam com um breve olá.

Sempre fui simpático telefonicamente falando. Sempre tento ver o melhor dos dias entre as pontes que construo.

De vez em quando meto-me com as outras pessoas, ou olho ou então coloco-me atrás dos aceleras. Acho piada quando eles vêm a aproximar-me com o meu carro cinzento, abrandam a pensar que é a policia, ou algo do género. Eu sei, diversões estúpidas de uma viagem solitária.

Nisso toca o telefone. Um número que desconheço por completo. Atendo. Do outro lado.

Então? Quando me ligas?

Desculpe.

Quando é que me ligas? Estás a fazer-te de forte é isso? Pensava que já não tínhamos idade para isso, ou que estávamos nessa fase.

Tinha passado 2 semanas que a tinha conhecido num aeroporto. Que se tinha sentido tão calmo e numa paz celestial. Tanto ele se arrependeu de rasgar o papel com o número dela, mas recordava-se bem do nome, demasiado bem. Do seu olhar de camaleão, a maneira como ela fitava o olhar. A sua pronuncia que teimava em arranhar nos “erres”. Que tentava esconder. A sua camisa branca desabotoada, a sua pele. Tinha sido a primeira vez que tinha encontrado alguém que conseguia conversar e trocar ideias. Ideias tão simples mas que são tão complicadas, recordou-se de uma história antiga. Quando uma mulher muito bonita, numa festa, chegou ao pé dele e disse-lhe que os homens eram todos iguais, só pensavam em sexo e não tinham ideias e ele perguntou-lhe qual era a capital do Perú. Ainda se recordava da cara dela a dizer Perú. Quando ele colocou um ponto final dizendo, “Ideias”. Obviamente que acabou na cama com ela e abandonou-a no dia a seguir com um bilhete simpático a dizer “Nenhum sexo deve ser feito sem ideias, adeus.”

Estás aí? Estou. Estás a ouvir-me. Os pensamentos foram interrompidos.

Sim.

Não respondes?

Queres que te ligue?

Sim.

Nisto, desligo-lhe a chamada e ligo-lhe de seguida.

Queres brincar é isso?

Não. Quero-te ver.

Não sei se mereces.

Como posso merecer?

Dá-me uma razão para que isso aconteça. Já te disse que me fazes lembrar um playboy.

Eu?

A maneira como olhas, e como nunca te sentes inibido com nada. Desculpa mas pareces.

Uma razão, é isso?

Sim, só isso.

Sou diferente.

Diferente? Do quê? Todos dizem isso.

Eu, eu sei que sou diferente da maioria. Eu sei que vejo o mundo de maneira diferente. O meu mundo. O meu mar. Senão fosse isso, explica-me porque me sinto sempre desalinhado, fora de tudo. Não consigo gostar de nada. Nada me motiva. Vivo com a solidão. Sim essa bela solidão que me alimenta, eu não sofro com ela, eu vivo com ela. O de sentir. O sofrer, sem razão. Um mal estar permanente. Uma dor estúpida e sem nexo. Além do mais tu és.

Sim.

Tu fitas os olhos quando queres ser levada a sério. Quando falas do passado olhas no vazio. Desvias o olhar sistematicamente que te enfrento. E não me perguntes a cor dos teus olhos porque simplesmente não sei, mudam com o teu brilho e com a luz. Tens uma cicatriz no nariz, aposto que foi quando eras miúda. Não és de Lisboa, pela tua pronúncia. Notasse que perdeste alguém e que não sabes o que procurar, porque não tens ideia do que possa ser.

Continua.

És demasiado bonita. Demasiado perigosa para o playboy

Porque não me ligaste?

Porque deitei fora o teu número.

Desculpa?

Já sei que me vou apaixonar por ti e tu por mim. Não quero sofrer uma vez mais e não quero fazer sofrer alguém.

A vida são dois dias.

Quando nos vemos?

Hoje?

Não estou em Lisboa. Amanhã?

18,30?

Onde?

Vamos passear no passeio de Oeiras, o que dizes? Aquilo tem umas esplanadas maravilhosas.

Ok.

Ate amanhã.

A chamada terminou.

 

Beleza

Porra, a tua beleza magoa-me A tua calma impressiona-me A tua cara envergonha-me O teu corpo humilha-me A maneira com fal...