Nada mudou,
nem o tom de voz, nem a raiva de te ver longe me move, nada. Nada daquilo que
eu quero me decepciona ou surpreende. Sou um viciado de mim, depois digo-te. Não
quero mais estas coisas tão pequenas e isoladas que me fazem sentir como tu.
Vou no meu
carro. Enquanto falo contigo, no meu alta voz, olho-me ao espelho retrovisor e
tento-me acalmar. Vou depressa, demasiado depressa para um erro enquanto
vomitas palavras. Palavras de alegria e satisfação. A tua felicidade é palpável
a minha também. Não me consegui sentir infeliz ou que tu conseguisses tal
coisa. Nem aquela pontinha de inveja ridícula que é admissível. Nada. Afinal
não és assim tão importante. Nada o é.
Nada me
toca, nem tu. Nem mesmo tu.
Reconheço
que tenho medo do que me estou a tornar. Medo de deixar de sentir aquelas
coisas pequenas que nos fazem sentir vivos. Consegui tornar-me independente e
amorfo. O meu sangue já não é o que era e eu esforço-me para que isso aconteça.
Esforço-me imenso. Assim a minha felicidade na tua. Continuas a vomitar
palavras e eu já as não oiço.
Tinhas-me
ligado, no começo não percebi o telefonema. Também não quero entender, nem tão
pouco o porquê de me teres ligado. Eu não preciso disso. Não preciso de ti,
apenas de mim, enquanto tiver forças para me erguer. Começaste por dizer que
estavas apaixonada, que eu era um vicio doloroso e que tinhas encontrado outro
objetivo, que o nome dele é João e que o amavas muito mais do que aquilo
poderias sentir um dia por mim, nem mesmo nos melhores momentos. Que ele não
tinha medo como eu tenho. Que ele assumia as coisas e eu escondia. Que ele se
lembrava das datas importantes, para ela, e eu omiti-as. Que ele a segurava na
mão e dizia que a amava e eu nunca lhe disse nada. Depois começou as acusações,
que a culpa era minha e que eu era doente, ou seja o normal em qualquer
despedida telefónica. Ela continuava a vomitar palavras.
Eu disse-lhe
que nada do que escrevemos é verdadeiro. Ela não é tão negra assim. Nem sequer
sofres de mal estares gerais. Nisso tive que desviar-me de um carro e perdi a
atenção. Enquanto ofendia o outro condutor e ela vomitava palavras, desliguei. O processo da separação tinha começado. Ela voltou a ligar e desligava até ela desistir.
Ainda não sei que sentimento tive.
Nada do que
escrevo é real. Nada. Tenho tudo o que quero e o que não tenho compro. Agora
muito mais calmo sigo viagem.
Paro numa
área de serviço, começo a ver o telemóvel e mais mensagens, agora não.
Estaciono o meu carro cinzento em frente à cafetaria, desligo o rádio. Saio,
ajeito o casaco.
Quero um
café, com adoçante sff. Sentei-me agarro no meu tablet para te enviar uma
mensagem, pensei, nada do que escrevemos é verdadeiro e assim lhe escrevi “Amo o que me toca, odeio o que me abandona,
adeus Ana”.