quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Blá Blá
-Tenho que te avisar que hoje eu não vou fazer sexo contigo.
-Hoje?
-Sim, hoje não.
-Porquê?
-Porque é o que eles pensam que vamos fazer. Assim que entrei no teu carro eles já sabiam isso.
-E se eles não pensassem isso?
-Poderíamos.
-Queres ir perguntar a eles o que pensam?
-Não, já sabia a resposta.
Ele agarrou no volante e começou a pensar. Porra, sou assim tão fácil. Porque carga de água eu queria fazer sexo contigo. Porquê? E se eu lhe dissesse que quero mais do que isso. Que a companhia dela era suficiente. Nunca me senti sujo a não ser com a tua confiança. Será que é só isso que eu quero e procuro? Não pode ser. O meu rumo e a minha viagem é paralela à minha vontade.
-Então e o que queres fazer?
-Não estava a espera que me perguntasses isso. O que quero e o que posso são diferentes. Esperava mais de ti. Esperava que não mo perguntasses. Esperava que mostrasses outras coisas. Esperava que me levasses onde não queria estar. Que me fizesses o que eu não quero.
O carro tornou-se demasiado grande. Frio. Vazio. Silencioso. Era impossível o aproximar de um degelo. Porque me estás a fazer isto? Qual é a tua intenção. A prova constante das acções, estamos sempre a ser avaliados. Avaliação começa com a saudade. Saudade de ser independente. Tenho que tentar sê-lo em relação a ti.
-Olha, cresci aqui, neste bairro. Ainda guardo algumas amizades. Tenho boas histórias. Queres ouvir alguma?
-Não. Como eras antes de te ver?
-Era livre, basicamente apenas isso. Pouco aqui estive. Gostava de estar só, porque assim é sabia lidar com as situações.
-Quais?
-Se não estivesses aqui sabia lidar com o silêncio. Contigo ou sem ti é difícil.
-Porquê comigo?
-Porque te conheci.
-Gosto de morangos.
-Morangos?
-Sim, o sabor. O paladar. A côr. A maneira como eles se esmorecem nos meus lábios. A maneira como suportam as minhas dentadas. A vulgaridade deles. Gosto da ideia de gostar de coisas vulgares.
Desesperante a ideia de estar com a companhia perfeita. O passeio perfeito. A viagem perfeita. Sem a consumação de um final previamente anunciado.
-Queres um chocolate quente?
-Isso pode ser.
A nossa última noite
Ela disse; entra, enquanto abria a porta
eu, com medo que me barrasse o caminho
parei
olhei
implorei-te a verdade…………..
não sabia porque ali estava
não sabia o que ela queria, mas ali ficava
o medo que me invade,
preso na porta que me derrota
mas isso agora pouco me importa
a não ser as certezas de ficar contigo ou sozinho.
Eles, já tinham dito tudo
que mais se podia dizer?
já se tinha feito tudo
que mais se podia fazer?
mas ali ficavam, no silêncio de um olhar
aquela vontade estúpida de ficar contigo, a teu lado
mas não dizer.
O que não tem compreensão
o desistir desta enferma religião
ambígua e eterna, solidão
que já não tem nada de novo para dizer
estou cansado das minhas batalhas em vão
estou cansado de ser rejeitado
estou cansado de seguir o teu caminho
sozinho
ouves? Apenas existe este vazio
frio
que me consome
o que tu quiseres que eu seja, eu me edifico
mudo de nome
transformo-me
desisto de ti, não?
Não me desistas de me tentar…………..
por isso abre esta porta
pois eu já aqui estou, e tu aqui estás e é onde eu me edifico.
Entrei
lembro-me que a tua casa estava deserta
lembro-me de estares distante
lembro-me de tudo e de nada de importante
lembro-me das tuas roupas, do teu cabelo, da tua mão aberta
lembro-me das minhas roupas, sujas e gastas por lavar
lembro-me de dizeres coisas que me incomodavam
como eu estar diferente
de já não me conheceres
de estar doente
de não ser alma no corpo que pretendes.
Ou seria o corpo na alma que entendes.
Lembro-me, agora, que te tentei tocar
tentei-te beijar
não me recordo se o trocámos, deixou de ser importante
sei que te tentei
e assim me afastei.
Fechei a porta
foi nessa noite que te comecei a perder
foi nessa noite te lembraste de me esquecer
e eu por ti não lutei………….
Queria-te ter a meu lado……..
Assim segui o meu rumo isolado
perdido neste passado
ignorando os pensamentos que me derrotavam
incomodavam
irritavam
porque não era eu que estava diferente
era, sim, apenas tu………………
que precisavas de uma razão para te esqueceres de um corpo.
e a ti nunca to perguntei!
eu, com medo que me barrasse o caminho
parei
olhei
implorei-te a verdade…………..
não sabia porque ali estava
não sabia o que ela queria, mas ali ficava
o medo que me invade,
preso na porta que me derrota
mas isso agora pouco me importa
a não ser as certezas de ficar contigo ou sozinho.
Eles, já tinham dito tudo
que mais se podia dizer?
já se tinha feito tudo
que mais se podia fazer?
mas ali ficavam, no silêncio de um olhar
aquela vontade estúpida de ficar contigo, a teu lado
mas não dizer.
O que não tem compreensão
o desistir desta enferma religião
ambígua e eterna, solidão
que já não tem nada de novo para dizer
estou cansado das minhas batalhas em vão
estou cansado de ser rejeitado
estou cansado de seguir o teu caminho
sozinho
ouves? Apenas existe este vazio
frio
que me consome
o que tu quiseres que eu seja, eu me edifico
mudo de nome
transformo-me
desisto de ti, não?
Não me desistas de me tentar…………..
por isso abre esta porta
pois eu já aqui estou, e tu aqui estás e é onde eu me edifico.
Entrei
lembro-me que a tua casa estava deserta
lembro-me de estares distante
lembro-me de tudo e de nada de importante
lembro-me das tuas roupas, do teu cabelo, da tua mão aberta
lembro-me das minhas roupas, sujas e gastas por lavar
lembro-me de dizeres coisas que me incomodavam
como eu estar diferente
de já não me conheceres
de estar doente
de não ser alma no corpo que pretendes.
Ou seria o corpo na alma que entendes.
Lembro-me, agora, que te tentei tocar
tentei-te beijar
não me recordo se o trocámos, deixou de ser importante
sei que te tentei
e assim me afastei.
Fechei a porta
foi nessa noite que te comecei a perder
foi nessa noite te lembraste de me esquecer
e eu por ti não lutei………….
Queria-te ter a meu lado……..
Assim segui o meu rumo isolado
perdido neste passado
ignorando os pensamentos que me derrotavam
incomodavam
irritavam
porque não era eu que estava diferente
era, sim, apenas tu………………
que precisavas de uma razão para te esqueceres de um corpo.
e a ti nunca to perguntei!
Segredo
Lembraste quando te vi a primeira vez? Eu lembro-me com uma exactidão generosa. Entrei nesse café e pedi o que queria, sentei-me numa mesa mais pequena do que o normal a desfolhar o jornal e a saborear a cafeína. Recordas-te? Foi aí que te vi. Estavas sentada na minha frente e sorriste, pensei que fosse para mim mas não era. Era para ti. Para os teus pensamentos.
Adoro o teu corpo, o meu já nem tanto. Adoro o teu cabelo solto que liberta essa tatuagem por trás da orelha. Adoro a tua saliva, gosto de sentir o teu sabor e ficar preso a um cheiro. Mas, acima de tudo, adoro a tua insegurança. O facto de seres incapaz de defrontares o meu olhar. A maneira como te venço e depois fujo, para bem longe.
Enquanto o frio aperta, lá fora, por aqui ficamos. Toco na tua mão e invento histórias, a maior parte dela somos nós os principais actores, os finais são em regra geral, felizes. O meu mundo foi conquistado em nós e assim nos cumprimentamos, evitando mais derrotas.
Vou-te contar o meu segredo, por enquanto assim, depois espero que fiques, assim;
Sei o teu mais secreto segredo
aquele que tentas-me esconder
sei que sentes o medo
o medo puro e insano de sofrer
de caíres na minha loucura
enquanto a noite cai e a espera dura.........
Sei o teu mais secreto segredo
sei a onda do teu corpo onde navego
sei onde o teu sonho se implanta, neste rochedo
onde me atraco em paz e sossego
de saber o teu segredo, de não mo quereres dar
sob este céu, chuva e rancor que nos tende a afastar
Sei, já não sei se o sei, mas sei o teu segredo
e tu jamais saberás que o teu é o meu bruxedo!
Desculpa amor
Desculpa amor.
Desculpa por não te ter escrito. Desculpa-me por ter fugido. Desculpa-me por desaparecer. Desculpa-me por evitar sonhar. Desculpa-me por desistir de te tentar. Desculpa-me por tentar viver o normal dos dias. Desculpa-me por ser tão vazio, assim depois das palavras que te escondo e evito falar. Quando sinto a tua respiração no meu pescoço e a minha te assusta.
Qualquer dia deste vou-te visitar. Qualquer dia.
Assim, vou-me ferir de dor. Vou provocar o meu vómito. Adormecer a um canto. Para depois acordar junto a ti. Somente a teu lado isto faz sentido. A semelhança da alma, vindo da luz e descobrir que sou capaz de apagá-la.
Hoje, estive com um amigo que foi pai. Eu disse-te. Contou-me histórias de OVNI´s sobre o rio Tejo. Eu sorri. É para estes desvaneios que eu me guardo. O rio Tejo separa-nos e agora é povoado por uns aliens verdes, suponho. A casa deles é como um prato, virado ao contrário.
Apareceu de dentro de água e fugiu no céu aos zigue-zagues. É para isto que me guardo.
A saudade imensa de desaparecer em ti. Vou-me deitar na espera que esta dor passe.
Desculpa amor por ter tentado fugir de ti, quando estás sempre aqui!
Desculpa por não te ter escrito. Desculpa-me por ter fugido. Desculpa-me por desaparecer. Desculpa-me por evitar sonhar. Desculpa-me por desistir de te tentar. Desculpa-me por tentar viver o normal dos dias. Desculpa-me por ser tão vazio, assim depois das palavras que te escondo e evito falar. Quando sinto a tua respiração no meu pescoço e a minha te assusta.
Qualquer dia deste vou-te visitar. Qualquer dia.
Assim, vou-me ferir de dor. Vou provocar o meu vómito. Adormecer a um canto. Para depois acordar junto a ti. Somente a teu lado isto faz sentido. A semelhança da alma, vindo da luz e descobrir que sou capaz de apagá-la.
Hoje, estive com um amigo que foi pai. Eu disse-te. Contou-me histórias de OVNI´s sobre o rio Tejo. Eu sorri. É para estes desvaneios que eu me guardo. O rio Tejo separa-nos e agora é povoado por uns aliens verdes, suponho. A casa deles é como um prato, virado ao contrário.
Apareceu de dentro de água e fugiu no céu aos zigue-zagues. É para isto que me guardo.
A saudade imensa de desaparecer em ti. Vou-me deitar na espera que esta dor passe.
Desculpa amor por ter tentado fugir de ti, quando estás sempre aqui!
Esta noite
Esta noite vou-me perder. Vou-me perder por aí. Com uma esperança ridícula de ser encontrado. Uma vez mais. Como sempre. Dentro de mim.
As fotografias são cruéis. Captam o momento. Captam as sensações dos momentos. Momentos. Com o passar dos tempos já não nos reconhecemos ou não nos dizem nada. Tudo passa. O tempo mata tudo. Tudo. Até o corpo que nos envolve, lentamente.
O abismo. É negro e esta noite vou-me perder. Vou-me perder sem ti ou sem outra coisa qualquer. Enquanto escrevo sentado na minha cadeira preta neste escritório de divisórias vou contar enquanto espero pela tua resposta. Como faço sempre. Vou contar até 20. Dar-te tempo.
1, 2, 3, 4, mais devagar, 5, 6, 7, ou seria 6.
Tempo
Senti o cheiro da chuva, enquanto inundava a minha varanda. Da minha varanda vejo luzes. Luzes de néon e incandescentes. O meu luar tem 3 luas. A minha varanda 2 janelas. O meu corpo, sangue.
Corri para ela. Em tronco nu. Fumei um cigarro até à exaustão. Saboreava o meu copo. A chuva beijava-me. Ninguém me viu. Este cheiro que adoro.
Fiz-me notar pela ausência. A minha ausência em mim. Sorriso, já não existe. Por aqui fico. Fico e fico e me edifico.
Lembrei-me de ti, hoje. Lembrei-me. Não contei a ninguém, por isso escrevo. Tento invocar as minhas memórias. A necessidade de um quadro. Uma tela. Uma razão para beber. Devagar.
Escondo-me das pessoas. Não quero mais contactos. Sinto que morro durante o dia para renascer na noite. Na penumbra. Onde não há luz. Odeio a luz. Odeio os códigos. O telefone não toca.
O tempo. Tempo de…………
Tempo para………
No sábado fui ver gente e luzes. Fui desafiado por uns amigos. Poucos são os que ainda aqui voltam. Acabámos a rir. Acabamos sempre a rir. Falámos de nós. Falamos sempre do nos apoquenta ou orgulha. Este mal estar generalizado. Ficámos mais amigos. O elo que nos une é quase visível.
Tempo.
O Nosso dia
Adormeci tarde, tarde demais para te acordar.
As palavras que me restam são para ti. Assim te apresentaste e assim te despediste. Por entre o meu olhar voaste livre, apenas isso, livre e indiferente como toda tu. Na calma que me transmites eu fujo ao inferno de sobreviver pelas tuas palavras que me restam.
Já sorri contigo. Já vivi contigo. Já morri contigo. Desapareço em ti. Só me resta voar contigo. Tirar os pés do chão de mão dada. Por entre os meus pecados e os teus desejos. Assim. Voarei como tu inventas. No silêncio que digeres na minha carne.
Criei-te em súplicas. Sonhos demasiado realistas.
Os meus sonhos são vazios evaporados na natureza de crescer em ti. Ontem vieste ter comigo. Andámos a percorrer calçadas e a tirar fotos às ruas de Barcelona. Desenhámos o nosso mundo no chão. Percorremos as fronteiras do tempo. Vivemos a nossa descoberta e trocámos mensagens. Vieste aqui por umas horas que pareceram segundos. Quando voltei ao hotel a cama continuava vazia. A outra ocupada pelo meu espaço.
Levei-te a jantar. Comemos carne. Violaste um vício. Matámos o medo com a primeira bebida. Afogámos a vontade. Quando me deitei a cama continuava vazia. O quarto vazio. Tudo vazio. Sem ti. É assim que sou, sem ti. Um vazio repleto de espaço por ti.
Ideias
Estou morto, para um tédio que combate esta ânsia
Sinto-me morto, assediado por dinheiro sujo e falsificado
Acabei por ser morto, num gesto sem significado, uma euforia
Fico morto de desejo por te ter num bacanal assexuado
Estou vivo, pisando a vergonha e o prazer obscuro, o pecado
Sinto-me vivo e orgulhoso por ver que tudo que me rodeia é banal
Descobri-me vivo, um milagre da ciência, aqui do mercado
Vivo para um mundo, deserto, num acto típico e ocasional
Perguntas-me o que mais quero e não faço
acobardo-me por reparar que descobriste o meu fracasso
apelidas-me de frustrado, por não transmitir o que mais anseio
tu pensas, ignóbil e perguntas-me o quê? Como se te parisses ao meio
e eu digo-te,
Ideias ,rapaz........
Ideias..............................
Até um dia, amigo!
Ontem vi um amigo de grandes datas, lutas e feitos. Andávamos os dois às compras num hipermercado, cá da cidade. Os hipermercados são os melhores pontos de encontro. Dois rebeldes assumidos com um cestinho vermelho. É caricato. Tanta luta, tanta revolta para redundarmos nisto. Andava à procura de bolos e tu de café.
Ainda nos reconhecemos, descobrimos isso. Eu estou diferente e tu também. Demasiado diferentes mas com a mesma atitude. Gritámos o nosso nome. Ficámos parados e calados. Perguntas de ocasião. Quisemos saber tudo um do outro em 5 minutos. Quando já tinha passado uma vida.
Um sentimento estranho apoderou-se de nós. Parecíamos cúmplices de um roteiro. Sabíamos tanta coisa um do outro mas não conseguíamos falar nada. Nada de útil. Não há nada para falar. O teu rumo e o meu foram por pólos opostos. Eu desisti antes de ti e isso notava-se.
Trocámos os números dos telemóveis. Prometemo-nos que iríamos voltar a falar. Iríamos retomar o abandono.
Peguei no meu cesto vermelho, onde já estavam os bolos que pretendia. Abraçámo-nos.
Até um dia, amigo.
Esta noite
Esta noite, não dormi. Vinguei-me do sono, da fadiga e do cansaço. Tive o tempo que me falta, para pensar neste meu mundo. Fechei-me no meu canto. Apaguei estas luzes. Estive isolado e cansado do sossego. Recebi umas mensagens e uns telefonemas. Não devolvi. Agora não. Simplesmente estou a fugir parado. Refugio-me em advérvios. Prendo-me em ideias. Evoco o calão.
Criei o meu fantasma.
Devagar me liberto, em mim.
Devagar me divirto, assim.
Um espelho negro invade a minha sala. Quando passo por ele nunca o enfrento. Não suporto a doce imagem da minha solidão. Raivas incontidas, flutuam em segredo. Ignoram este mal estar. se tu aqui estivesses poderias ajudar-me. Hoje não.
Entristece-me a minha rotina. O meu fantasma irá ser diferente.
Acende-se a luz
Acordo de abandono
Viver contigo chateia. Viver a teu lado é exasperante. Viver sem o meu vazio é incomodativo. Viver a tua vida cansa. Viver por viver. Sento-me a ver se isto passa.
O meu carro é cinzento.
Moro numa casa que cresceu com o tempo. Os quartos são enormes. Passo a maior parte do tempo no mesmo sítio. Existem quartos onde eu nunca vou mas já os mobilei. Saquei umas ideias de umas revistas de moda. Ficou engraçado. Terias gostado. Esta casa cada vez é mais fria. Agora, sem ti, divirto-me a dormir em todas as camas. Sabes, o meu cão continua a ladrar. Eu gosto. Assim, por vezes, os vizinhos sabem que existe vida. A casa está à minha imagem. Preto e branco. Fria. Vazia. Isolada.
Gostaria de ver como está a tua.
De que cor é o teu carro?
Parti os espelhos que colocastes. Não suportava ter que me ver constantemente neles. Cada vez gosto menos do que vejo. Nunca gostei de mim. Gostava mais de ti. As imagens constantes deste meu desespero. Já não me lembro porque partiste. Por vezes recebo umas chamadas a horas impróprias. Ninguém fala. Penso que és tu. Nelas já gritei. Já disse que te amava. Já disse que tinha desistido de ser mais forte. Depois deito-me.
Qual é o carro que compraste?
Nunca mais houve pessoas, aqui. Suavemente foram desaparecendo. Suavemente eu fiquei. Os amigos, eram teus. Levaste-me tudo. Ficaram as memórias. Tudo o que reclamava, não faço. Tudo o que exigia, marimbei-me. Depois do tempo, as discussões perdem o direito de permanecer vivas e com razão. Tenho saudades de te pegar ao colo. Afagar as tuas lágrimas. Fazer parte da tua vida. Ajudar-te com os sacos das compras. Arranjar o varão do cortinado. Pintar as paredes porque o querias. Mudar o óleo ao teu carro.
Quando me tocas eu não sinto
Enquanto falas eu não oiço. Quando me tocas eu não sinto, apenas viajamos por aí enquanto os toques acentuam-se. Vieste de longe, disseste. Eu atravessei a minha rua para entrar pela tua e assim apresentar-me. Neste manto salgado.
O frio lá fora degola-me, sentiste? Eu não tenho nada para te dizer a não ser mentir e ficar por aqui, parado. A mentira sempre foi pacifica e salvadora de alguns aborrecimentos. Imóvel, por vezes as palavras ecoam, magoam como perguntas já estabelecidas e acordadas entre nós, diz-se tão pouco e ouve-se tanto. No meio da nossa viagem, entregue a nós, tocas-me e eu nada sinto.
Queria ter coragem de te tocar, queria ter aquela força de te tocar, por mim e em mim. Enquanto não o faço fumo um cigarro. Gostava de te encontrar com o tempo e pelo tempo. No meio da minha viagem volto para o meu lugar. Assim ficaram. Quando sais eu fico.
Não tenho medo desta noite, nem de ti.
Natal
Um outro Natal
Uma área de serviço. GALP. Oito da noite numa véspera da véspera de natal. Três homens encontram-se. Um de cabelo grande outro mais ansioso e ainda o outro mais calmo. Um chega num carro cinzento outro num preto e ainda o outro num azul.
Começam por um cumprimento que termina num abraço. Esta altura do ano dá para isto. Desvaneios controlados. Trocam prendas que estavam escondidas na mala do carro. Entre palavras cordiais a empatia é palpável.
Começaram por pedir um café mas preferiram a cerveja. Entre dois golos começou a conversa.
O homem de cabelo grande pergunta;
- Onde vão passar o natal?
- Na minha casa. Quero ver se consigo estar com as minhas filhas. Este ano comprei-lhes tantas prendas que pensei que era um abuso e já comecei a oferecê-las a outras crianças. Tenho medo que elas pensem que estou a comprá-las.
O mais calmo ouviu e reflectiu.
O de cabelo grande responde.
-Eu só quero imaginar o sorriso da minha quando abrir as prendas. Nas minhas prendas coloquei sempre o meu nome para ela saber que sou eu.
-Hum, vais passar aonde o natal? Desafiou o ansioso.
-Numa pensão qualquer.
Por entre gargalhadas continuam na cerveja e uma bifana a acompanhar.
Finalmente o calmo, falou.
- O problema é nosso. A nossa geração, os que estão a chegar aos “enta”, tem uma tendência suicida para comprar os filhos. Vivemos para uma carreira que se redunda num nada. Talvez num gabinete, um bom carro. Não acham?
Silêncio.
- Quantas noites passámos nós com eles? Insistiu.
Mudaram de assunto. As noites já são negras o suficiente. Amanhã pensam onde passam o natal. Nestas alturas o futebol é sempre um bom tema……..
Uma área de serviço. GALP. Oito da noite numa véspera da véspera de natal. Três homens encontram-se. Um de cabelo grande outro mais ansioso e ainda o outro mais calmo. Um chega num carro cinzento outro num preto e ainda o outro num azul.
Começam por um cumprimento que termina num abraço. Esta altura do ano dá para isto. Desvaneios controlados. Trocam prendas que estavam escondidas na mala do carro. Entre palavras cordiais a empatia é palpável.
Começaram por pedir um café mas preferiram a cerveja. Entre dois golos começou a conversa.
O homem de cabelo grande pergunta;
- Onde vão passar o natal?
- Na minha casa. Quero ver se consigo estar com as minhas filhas. Este ano comprei-lhes tantas prendas que pensei que era um abuso e já comecei a oferecê-las a outras crianças. Tenho medo que elas pensem que estou a comprá-las.
O mais calmo ouviu e reflectiu.
O de cabelo grande responde.
-Eu só quero imaginar o sorriso da minha quando abrir as prendas. Nas minhas prendas coloquei sempre o meu nome para ela saber que sou eu.
-Hum, vais passar aonde o natal? Desafiou o ansioso.
-Numa pensão qualquer.
Por entre gargalhadas continuam na cerveja e uma bifana a acompanhar.
Finalmente o calmo, falou.
- O problema é nosso. A nossa geração, os que estão a chegar aos “enta”, tem uma tendência suicida para comprar os filhos. Vivemos para uma carreira que se redunda num nada. Talvez num gabinete, um bom carro. Não acham?
Silêncio.
- Quantas noites passámos nós com eles? Insistiu.
Mudaram de assunto. As noites já são negras o suficiente. Amanhã pensam onde passam o natal. Nestas alturas o futebol é sempre um bom tema……..
A tua morte
A tua morte sabe tão bem..........
Vrummmm…180…………………190……..195….200..205! Bati a barreira do som do alcatrão, onde alguns chegam e poucos a ultrapassam. Sempre me ajudaste, não é alcatrão? A nossa relação, se podemos chamar assim, sempre foi bilateral. Eu percorro-te, piso-te e tu guias-me. A sensação de pisar algo é reconfortante. Saber que há mais coisas abaixo de nós. Não sermos o último de uma fila incontável. Sempre que me sentir pisado, piso-te. É injusto.
Hoje ficaste no alcatrão. Lá atrás. Eu não volto atrás. Jamais. Assassinei-te. Eu sei que merecias um funeral digno, não tive tempo nem vocação. Foi uma morte rápida. Demasiado. Foi fácil. Demasiado. Já sei que é possível. Desculpa.
Rasguei o teu nome. Rasguei os teus poemas. Apaguei as tuas mensagens. Apaguei os teus números. Nunca mais te vou encontrar. O mais importante é apagar-te de mim. Afastar a ideia que um corpo pode oferecer sensações estranhas. Afastar aquilo que não se domina.
Quando chegar a casa ligo para a polícia para me virem buscar. Vou alegar que sou um louco, sim um doido varrido. Apaguei todos os teus nacos para ninguém me ligar até ti. Quero fazer o teste do polígrafo para comprovar que não minto. Estás morta em mim.
A tua morte saciou a minha raiva. Esta coisa doentia que estava recalcada. Quem és tu?
Eu não procuro, procuram-me. Eu não tento, tentam-me. Eu não peço, pedem-me. Quem és tu para alterar o ritmo normal das coisas? Quem és tu para ousares pensar que podia-te procurar? Sendo assim matei-te……………
Descansa eu morri mais do que tu. A tua morte ergueu um fogo. O fogo da vontade.
Enquanto tu morres em mim, renasces no meu papel e na ponta da minha caneta. É assim que tu irás viver.
Vrummmm…180…………………190……..195….200..205! Bati a barreira do som do alcatrão, onde alguns chegam e poucos a ultrapassam. Sempre me ajudaste, não é alcatrão? A nossa relação, se podemos chamar assim, sempre foi bilateral. Eu percorro-te, piso-te e tu guias-me. A sensação de pisar algo é reconfortante. Saber que há mais coisas abaixo de nós. Não sermos o último de uma fila incontável. Sempre que me sentir pisado, piso-te. É injusto.
Hoje ficaste no alcatrão. Lá atrás. Eu não volto atrás. Jamais. Assassinei-te. Eu sei que merecias um funeral digno, não tive tempo nem vocação. Foi uma morte rápida. Demasiado. Foi fácil. Demasiado. Já sei que é possível. Desculpa.
Rasguei o teu nome. Rasguei os teus poemas. Apaguei as tuas mensagens. Apaguei os teus números. Nunca mais te vou encontrar. O mais importante é apagar-te de mim. Afastar a ideia que um corpo pode oferecer sensações estranhas. Afastar aquilo que não se domina.
Quando chegar a casa ligo para a polícia para me virem buscar. Vou alegar que sou um louco, sim um doido varrido. Apaguei todos os teus nacos para ninguém me ligar até ti. Quero fazer o teste do polígrafo para comprovar que não minto. Estás morta em mim.
A tua morte saciou a minha raiva. Esta coisa doentia que estava recalcada. Quem és tu?
Eu não procuro, procuram-me. Eu não tento, tentam-me. Eu não peço, pedem-me. Quem és tu para alterar o ritmo normal das coisas? Quem és tu para ousares pensar que podia-te procurar? Sendo assim matei-te……………
Descansa eu morri mais do que tu. A tua morte ergueu um fogo. O fogo da vontade.
Enquanto tu morres em mim, renasces no meu papel e na ponta da minha caneta. É assim que tu irás viver.
Relações
PARTE I
Alguns dias atrás, vinha numa das minhas viagens, recebi uma mensagem que dizia “adeus Paulo”. Curioso. O adeus parece que soa a uma atitude definitiva. O “adeus”, torna tudo racional e concluído. Aproveito, agora e aqui, para te dizer adeus também e desejar-te uma boa vida, longe de mim. Porque a meu lado era complicado. As pessoas acabam sempre por se cansar.
Desculpa nunca te ligar a não ser para sexo, puro e duro. Desculpa nunca me lembrar do teu aniversário ou daquelas datas estúpidas como o primeiro beijo, primeira vez que saímos, etc. desculpa nunca querer saber dos teus problemas porque os meus já chegavam. Dos dias que ligavas porque me querias ver e eu arranjava milhões de desculpas que pareciam todas furadas. Depois já eras tu a fazer o mesmo. Eu pensava que era divertido. Tu pensavas que eu não sabia que tudo estava a chegar ao fim. É mais fácil virar as costas e aprender a ser feliz.
Recordo-me, agora, como és. Gostava do teu corpo e do teu rosto, eras uma boa companhia e fazias questão de pagar quase todas as despesas algo que eu aprendi a lidar com isso. Penso que te mostrei um outro lado do mundo, tudo diferente daquilo que conhecias. Fomos ao teatro, percorremos exposições, andámos em festas. Apenas tinhas um defeito, o teu Q.I. era demasiado curto, mas não se pode ter tudo, não achas.
Assim aproveito-te para dizer, “Adeus, amiga”. Tenho a certeza de quando me vires na rua irás me falar.
PARTE II
Naqueles dias que passamos encerrados no escritório, a ouvir várias pessoas a justificar os chorudos ordenados que ganham. Com gráficos a analisar o evidente. O passivo e o activo, adoro estes termos. As probabilidades. Faz-me lembrar a cadeira de estatística e probabilidade. Que se esbate com “estamos em crise”.
No imenso ruído da reunião enviei uma mensagem para uma amiga que dizia “Hamburguer e motel?”. Ela respondeu a que horas. Eu disse-lhe 19.30. Ela contestou dizendo que não podia que tinha uma reunião, que só podia às 20.30. Assim ficou.
Acabou a reunião. Fui para o meu escritório. Sentei-me. Estive a despachar uns papeis. A analisar uns orçamentos, a introduzir uns dados. A fazer projectos. Eram 19.30 tinha tudo feito. Ainda tentei navegar na net. Tentei inventar algumas coisas para fazer, Deus é testemunha. Os gabinetes estavam vazios. O escritório escuro. Ainda fui beber uma imperial no café em frente. Acabei a discutir futebol com o Sr. Manuel. Um homem extremamente grande. Um grande adepto do Sporting eu sou do rival. As nossas discussões são sempre bastante cordiais.
Olhei para o relógio, 20.00h. Estava cansado, nem o prazer do sexo me fez levar a ficar. Mandei-lhe uma mensagem a dizer que já tinha passado a ponte portanto tinha que ficar para outro dia. Ela não me respondeu. Quando estava a estacionar o carro, já na minha casa, recebo uma mensagem a dizer “nunca mais me mandes mensagens, ok”. Eu, como sou uma pessoa muito bem educada, acatei o pedido desde logo. Nem lhe enviei um frio OK.
Geração Coca-Cola
“Senhores passageiros começámos a descer em direcção de Lisboa e aterramos dentro de 20 minutos. Está sol e a temperatura é de 18º. Desejamos-lhe um resto de boa viagem, muito obrigado.”
Mais uma viagem está a acabar. Mais uma vez vou chegar à minha pátria e não tenho ninguém há minha espera. Nunca irei provar a sensação de ter alguém para me abraçar. O correr para os braços de alguém. O meu nome a ser pronunciado. Um amo-te, a qualquer hora. Apenas o meu olhar quando percorro os corredores em direcção à porta. Apanho um táxi em direcção do meu carro.
A viagem de regresso é sempre detestável. Fecho os olhos. Tento simular o sono. Por vezes há alguém interessante a bordo, troca-se olhares e por aí fica-se. Normalmente apanha-se turbulência em pleno ar, nesta altura do ano é normal. A hospedeira sorriu para mim, deu-me um jornal e de amiúde vem perguntar-me se desejo mais. Vou encostado à janela. A meu lado vem um coca-cola qualquer empertigado. É detestável observar estes coca-colas sempre a tentar gozar de uma imagem que não é a dele. Não conversam, não sorriem, sempre a tentar mostrar um grau de superioridade qualquer que se torna ridícula. Acreditem que estão como eu, não há ninguém há espera deles. Apanham o táxi e pronto.
Trago na minha mala mais um plano infalível. Que redunda num sim ou num não. Novas teorias de mercado que irá revolucionar Portugal. Então, porque raio, estou por aqui e assim
Aos amores de Verão
Estou numa área de serviço, liguei o meu portátil e resolvi aproveitar a rede sem fios, e lembrei-me de escrever. Escrever com calma e com vontade. Recordei-me de ti. Do que estás a fazer agora, com quem estás por agora e do que pensas agora. Eu penso em ti.
Na segurança da indiferença e do poder do anónimo aqui escrevo sobre nós os dois. Sei que jamais me irás ler ou reler ou atreveres-te a me procurar e assim me sacio. Lembras-te das cascatas e do puro silêncio do rio. O vento que teimava em maltratar os nossos cabelos, o calor sufocante e anestesiante em nós. O primeiro beijo. O primeiro toque.
A primeira paixão que se tornou forte em nós. O ver-te com outras pessoas e eu sempre indiferente. O reverso da medalha. Aprendemos a lidar com isso.
Se eu te tivesse aceitado. O que seria de nós. Se eu te tivesse cedido.
O gozo de te rejeitar quando me tu me tinhas feito o mesmo, foi mais forte. Demasiado.
Já passaram uns 15 anos. Sempre que passo pela rua onde trocámos juras de amor, paro. Onde. Inspiro este meu ar que rareia. Espero que isto passe. Dediquei-te uma canção escrevi-te um poema. Enquanto te olhava.
Lembras-te quando vieste ter comigo e pediste-me desculpa por gostares de me magoar.
Eu beijei-te. O teu beijo magoava-me muito mais
Este vazio que nos une
Olá, é o Paulo. Recordas-te? Sim. Estava a ligar para te perguntar se querias sair. Quando? Logo à noite. Ok. Vou-te buscar a que horas? Oito. Está certo. vou-te buscar a casa? Até já. Fica com um beijo.
O que a solidão me faz.
Enquanto via o Benfica, na televisão, acompanhado por estas cervejas e os cigarros que me incomodam, pensava em todas as alternativas para fugir da banalidade. Esta banalidade que me provoca. A necessidade de sair e ver luzes tornou-se um vicio. A necessidade de me sentir desejado enquanto me recusas.
O que a solidão me obriga a fazer.
Às oito lá estava. Às oito lá estava ela. Continuava como recordava. Linda. Cuidada e simples. Indefesa, porque ela sentia que eu a enfrentava. Perguntei-lhe onde queria ir. Encolheu os ombros. Arranquei no meu carro azul sem direção. Escolhemos um café verde para estacionar. Falámos de tudo o que nos dava na gana. Rimos de uma maneira infantil, por momentos estive feliz. Fomos a um jardim das redondezas e descemos num escorrega. Fizemos corridas de baloiço. Desafiámos a gravidade saltando o mais longe possível. Entre olhares andámos de mãos dadas.
O que a solidão te faz.
Levei-te ao meu porto de abrigo. Mostrei-te o quanto de lindo e calmo, como eu, ele tem. O silêncio que emerge. As histórias que ele reclama. De um lado o norte do outro o sul e nós tão afastados das luzes que viamos. Mostrei-te a varanda do meu castelo. Expliquei-te os caminhos e baptizei as montanhas. O frio era uma constante que nos obriga a abraçarmo-nos para aquecer os nossos corpos.
O que a solidão nos faz.
Levei-te a casa entre conversas de descoberta. Omitiamos os pensamentos e escondiamo-nos pela escuridão. Convidaste-me a subir e assim te acompanhei. Partilhámos os teus lençois....
2ª Pessoa do singular
Dói-me a cabeça. Hoje, definitivamente, não é o meu dia. Não é o meu dia, semana, mês e ano. Um azar susceptível a mal olhados acompanha-me. De momentos a momentos olha para mim e convida-me a beber um copo. Este monstro de ilusão. Perdido, por aqui, lado a lado. Disseram nas notícias que o sol voltaria. Os raios de luz invadiam o nosso espaço. Alguém pediu? Quero que a chuva volte, menos o vento que me incomoda.
As pessoas. Sim, aqueles seres que baloiçam ao nosso lado. Tem uma tendência mundana de nos tratarem por tu. Primeiro começa-se com um sr., depressa passa-se para a fase de dizer o nome próprio mas com um você à mistura. Do género, Rui olhe para aqui ou Ana o que você me obriga a fazer. Assim. Quando se passa para aquela fase do tu. Primeiro toma-se algumas reservas e cuidados. Depois avança-se.
Quando nos tratamos por tu parece que conquistámos uma guerra qualquer. Levámos de vencida um corpo e uma vontade. A alegria de falar uns com os outros muda. Já se troca anedotas. Falamos de vontades e desejos. Até compartilhamos desabafos sobre árbitros e golos que não entraram. Elogiamos a indumentária e troca-se um piropo perdido. Chegamos ao cúmulo de trocar frases pouco abonatórias de cariz pessoal.
Se é assim, porque não se passa logo para a fase do tu. Porque não? Qual é a razão. As fases que tem de se ultrapassar? Se aquela pessoa é mais digna de confiança do que eu? Se será que ela merece? Poderá parecer mal devido ao que os outros pensam? Mas, aí partiríamos para a complexa observação das maiorias.
Nas minhas férias, no local onde estive a pernoitar. Partilhei a minha piscina com um casal, que deveria ter a minha idade, que tratava os filhos por um poderoso você. Eles retribuíam com a mesma moeda. Imagino aquele filho falar com o pai sobre a primeira expressão de sentimentos com ele. Poderoso, não? Ou então a informá-lo que bateu com o carro, divinal não? Ou então que tinha intenção de sair de casa com uma mochila para ver o mundo de outra forma.
Eu, geralmente facilito sempre. Quando me chamam por você, senhor ou um outro título qualquer eu recordo que é pela segunda pessoa do singular que gosto de ser tratado. Se o souberem poderá ser pelo nome, cada vez menos pessoas se lembram dele, mas isso não importa. Irrita-me quando aqueles mesmo depois de ouvirem isto continuam com um poderoso você a tentarem manter uma distância que eu não quero encurtá-la.
Dois
Não há vento. Está tudo tão abafado. Nem as arvores se agitam. Dizia ela enquanto observava uma gaivota ao voltar. Gostava de ser um pássaro qualquer, continuava. Ser livre. Mais livre do que sou. Poder voar nua e de pois deitar-me neste mar.
Sentaram-se numa esplanada. Perto do mar. Analisavam o que restava da vida. O que aceitavam dela e o que recusavam. Ela, falava de uma maneira incipiente. Ele, amuava. Falaram-se de coisas para as quais não tinham resposta. Sobre um vazio que os circundava. Das coisas que se sente falta. Do amor que se prolongou. O afecto que faltava. Das duvidas inerentes ao respirar. As ambições.
-Imaginavas-te assim com 35 anos?
Silêncio. Silêncio entre os dois. Silêncio para alem dos dois.
-Queres ir dormir a um hotel? Nunca dormi num hotel na minha cidade.
E assim partiram os dois. Entregue aos dois.
Chamo-te perfeita por não ver mais ninguém
Esse teu olhar que se prende na folha de papel
esse corpo que me convida a morrer
essa vontade vã e inexplicável
de ficar e de me perder
de procriar sementes em ti, apenas por seres mulher.
Esse teu gesto que morre à nascença
essa tua ilusão que perdeste, perdeste
essa tua frustração de não teres a minha doença
a febre de um corpo a teu lado, onde te deste
a inglória semente a que chamas de peste
no teu corpo que me conduz e me despe.
É no teu corpo que me dou e sou dado
é nessa cama que se implanta o meu estado
chamo-te perfeita por não ver mais ninguém
chamo-te, peço-te, por favor vem
vem procurar o que perdeste
vem encontrar o que não pediste
vem ao encontro da tua doença
vem aqui..........nascer
em paz, tudo por amor?
(Descontaminação, 1992)
Nada que tu e eu escrevemos é verdadeiro
Decepcionei-me. Nada mudou. Nada.
Vou no meu carro. Enquanto falo contigo. Vou depressa. Demasiado. Vomitas palavras. A tua felicidade é palpável. A minha também.
Não consegui sentir-me infeliz. Não consegui sentir inveja ou outro qualquer sentimento de asco. Nada.
Nada me toca. Nem tu.
Tenho medo no que me estou a tornar. Medo de deixar de sentir aquelas coisas pequenas que nos fazem vivos. Consegui tornar-me independente e amorfo. O meu sangue já não é o que era. Nem a inveja me visitou. Apenas a tua na minha felicidade.
Tudo que se faz não tem sentido. Nada do que tu escreves é verdadeiro. Tu não és tão negra assim. Nem sequer sofres de mal estares gerais. As multidões acompanham-te. E as tuas indecisões apenas precisavam de um abanão. Eu sabia.
Ligaste-me. Não entendi o telefonema. Não percebi o motivo. Nem quero entender aquilo que também não entendes. Não preciso disso. Eu liberto-te, tu sabes disso. Jamais farei algo que altere o rumo do nosso mar. Não tenho jeito para lidar com isso.
Nada do que escrevo é real. Eu não sou assim. Nunca fui. Tenho tudo o que quero. O que não tenho, compro. Amo aquilo que me toca. Odeio o que me abandona.
Nada que tu e eu escrevemos é verdadeiro.
O que acontecia se houvesse um beijo?
O que acontecia se houvesse um beijo?
Sempre que te vejo, na minha cidade, o tesão é enorme. Já nos conhecemos há quanto tempo? 15 anos. Perto disso ou mais. Nada muda. Nada. O que aconteceria se eu tivesse-te beijado?
Tudo começou com um olhar e assim vai morrer. Já me disseste que só morre quando descobrirmos que somos umas más quecas. Imaginamos coisas. A imaginação será sempre o veneno da ilusão. E assim sobrevivemos. O que aconteceria, se nós e um beijo?
Já saímos. Já nos rimos. Continuamos a perpetuar jogos estúpidos de sedução enervada. Continuamos sem nos tocarmos. Assim. O que aconteceria se houvesse um beijo?
Será que continuaria tudo na mesma? Será que havia algo mais? Será que valeria o esforço?
Vi-te. Tu viste-me. Estavas a lavar o teu carro. Eu atestei o meu. Nesta nossa, cada vez mais cinzenta, cidade. Paraste o que estavas a fazer. Eu parei o carro. Fiquei nervoso como sempre fico. Mantenho a calma e falo devagar. O truque será sempre o mesmo. Tu, estavas nervosa. Rias. Depressa libertámo-nos da tensão. Depressa regressou o tesão. Perdemo-nos em jogos de flirt. Breves toques nas mãos, ancas, braços. Tudo para sentir a pele. O que aconteceria se eu te beijasse.
Já não nos víamos há um tempo. Tu continuas na mesma. Magra, morena, livre, linda. Disseste-me que estavas de férias. Pediste-me para te ligar. Tinhas uma casa de férias alugada. O que acontecerá se eu nunca te beijar?
Sempre que te vejo, na minha cidade, o tesão é enorme. Já nos conhecemos há quanto tempo? 15 anos. Perto disso ou mais. Nada muda. Nada. O que aconteceria se eu tivesse-te beijado?
Tudo começou com um olhar e assim vai morrer. Já me disseste que só morre quando descobrirmos que somos umas más quecas. Imaginamos coisas. A imaginação será sempre o veneno da ilusão. E assim sobrevivemos. O que aconteceria, se nós e um beijo?
Já saímos. Já nos rimos. Continuamos a perpetuar jogos estúpidos de sedução enervada. Continuamos sem nos tocarmos. Assim. O que aconteceria se houvesse um beijo?
Será que continuaria tudo na mesma? Será que havia algo mais? Será que valeria o esforço?
Vi-te. Tu viste-me. Estavas a lavar o teu carro. Eu atestei o meu. Nesta nossa, cada vez mais cinzenta, cidade. Paraste o que estavas a fazer. Eu parei o carro. Fiquei nervoso como sempre fico. Mantenho a calma e falo devagar. O truque será sempre o mesmo. Tu, estavas nervosa. Rias. Depressa libertámo-nos da tensão. Depressa regressou o tesão. Perdemo-nos em jogos de flirt. Breves toques nas mãos, ancas, braços. Tudo para sentir a pele. O que aconteceria se eu te beijasse.
Já não nos víamos há um tempo. Tu continuas na mesma. Magra, morena, livre, linda. Disseste-me que estavas de férias. Pediste-me para te ligar. Tinhas uma casa de férias alugada. O que acontecerá se eu nunca te beijar?
O meu mar
O Mar é escuro
O Mar é frio
vazio
Um muro....
que se ergue na minha passagem
onde as luzes reflectem
e os homens resistem
o sol ressuscita
no Mar
no teu Mar
no meu Mar....
Aquele Mar frio e vazio
que se estende até á margem
encrespado, oco e sem fé
onde os homens lutam e persistem
em nome de um sonho, algo frágil
que alguém inventou
e que um Deus dissecou
numa regra inútil
dependente de ti, eu assumo
nesta margem...
Uma ponte ergue-se, uma barragem se edifica
e eu com medo de te sentir
não me afasto do meu Mar
onde permaneço incógnito, a minha alma um fumo
onde te enfrento
com este meu grito que te ultrapassa
onde um olhar o alcança
onde a maré é a mudança
e eu uma farsa......
Descontaminação II
Boa noite, nós somos os Descontaminação e viemos para descontaminar as vossas almas.
E assim eles se apresentavam. Os 5 “gaijos” da capital cinzenta. De calças coçadas, algumas rasgadas em zonas estratégicas, t-shirts baratas e casacos de cabedal inundados de zips. Olhares alucinados, como se desafiassem qualquer geração que eles mais tarde acabariam por se vender.
O local era a zona de culto desta cidade. Hoje já não existe. No fundo da rua é uma igreja que profana um Deus qualquer, em frente, é um bar da moda. Naquela altura nós não éramos a moda, sim a rebeldia acabada em suor. Este suor que acabou em nada.
As luzes incandescentes davam uns efeitos giros, a malta, apertava-se e mexia ligeiramente a cabeça. O som, saía completamente abafado numas colunas enormes que se amontoavam no bar. Existia um palco para ficarmos ligeiramente elevados. Por trás umas cortinas que tapavam tudo o que era cabos e lixo. Por vezes esses recantos eram usados para o prazer.
E aí começavam. Primeiro a bateria, depois vinham as teclas e por fim, logo de seguida, as guitarras distorcidas. Seguiam-se as palavras.
Maria João
Maria João
Do meu coração
Deixaste-me só, só na solidão
Deixaste-me só, sozinho, agarrado àquilo que só tem uso com a mão
Seguir-te-ei até te encontrar
Pois no meu coração
Haverá sempre lugar
Um lugar para ti e para mais ninguém
Ó Maria João
Eu só te quero bem
Fugiremos os dois para o Japão
Tu a pé coxinho e eu num foguetão
E se um camião
Atropelar a gente
Morrerei a teu lado, morrerei contente
Ó Maria João
Meu grande amor
Deixaste-me só, entregue à dor
Maria João
Minha puta malvada
Meu grande "estapor "
Deixaste-me assim, minha desgraçada
Quando te encontrar já não quero nada
Maria João eu só te quero bem
Tu estás longe e assim estou bem
Maria João gostei de te conhecer
Pois apesar de tudo adorei-te foder.
Maria João e eu
Eu e a Maria João.
Descontaminação
Boa noite nós somos os Descontaminação, viemos para descontaminar as vossas almas! Dizia ele agarrado ao micro enquanto dava uns toques no baixo. Eram livres. Já estavam prontos mais que preparados. As musicas estavam preparadas. Começávamos com o eterno "Maria João" passávamos pelo "Sóbrio", nunca esquecendo o "Diabo Apostólico"e entre outras acabávamos no "Tanto Faz". Tanto Faz? Eramos livres.
Ah.
Eramos 5 ficámos 4.O Pedro tocava na guitarra, o Sérgio dava-lhe na bateria, o Maló tripava nas teclas e eu amava o baixo. Eis os Descontaminação. O som era o mais puro possível, as letras o mais profundo possível. Até tinhamos público. Sério?
Sim.
Saíamos da escola íamos a correr para a garagem. De quem era? Penso que isso não é importante.
Queriamos mudar o mundo. Mudámos o nosso mundo. Muito. Demasiado.
Começámos a perder os ideais. Perdemos a vergonha. Fizemos tudo que não deviamos fazer. Recordo-me das festas animais. Porquê? Era só aí que nos encontrávamos. Falávamos. Prometiamos o que não podiamos. Sempre descontaminados. Eles contaminaram-nos. Nós deixámos. Depois apareceu alguma coisa entre nós.
O que foi? Não quero falar disso.
Eramos 5 ficámos 3.Numa das nossas viagens, perdemos o Pedro.
Como? Não quero falar disso.
Desistimos aí. O Pedro era mais importante do que a música? O Pedro era um de nós. Nós eramos o Pedro o Pedro eramos nós. Como qualquer outro. Descobrimos que sentiamos a falta de nós. E que nós estavamos a mais uns dos outros. Não achas.Eramos 5 não ficou nenhum.Nunca mais nos vimos. Quando nos vimos evitamos olhar. Quando falamos dizemos o essêncial. Neste momento estamos contaminados e já não sentimos falta de nós.Já passaram 14 anos. mas dos 5 ficaram os sonhos.
De um gajo apaixonado que não sabe o que faz!
Eu vou buscar uma cerveja, queres uma? Dá-me o teu cartão. Já venho. Toma.Viste alguma coisa? Isto está cheio. As pessoas parecem cogumelos. Porra a cerveja está morta, meu. Já viste a empregada. É gorda e feia. É a primeira vez que venho a um bar e a empregada é desinteressante, aliás a qualidade do bar mede-se pela empregada, não achas? O tipo que está animar o Karaoke, xiiii. Aquele gajo vai cantar Tony Carreira. Para onde me trouxeste? Estes gajos sabem a letra da canção. É beber isto e vamos embora. Está bem?
Olha aquelas estão a olhar para nós. Sorriram. O que fazemos? Vou ficar quieto. Olha aqueles olhos. O desespero é mútuo. Vou buscar mais uma, queres? Queres ir cantar? Sei lá, dar vida a isto. Cantarmos alguma coisa de diferente para mostrarmos que somos diferentes. Tens razão a nossa diferença tem que ficar no silêncio. Agora é o Paulo Gonzo, as musicas são sempre as mesmas. Vou buscar mais uma, queres?
Já não via este gajo há tanto tempo, estás bom? A namorada? Manda-lhe um beijo. Se quero beber, claro. Vai buscar o que estou a beber. Isto aqui afinal é “muita” louco, não achas? A empregada não é assim tão desinteressante, até tem um olhar fixe. Já estou a dançar. Olha agora é uma música das doce, esta canto. Afinal meu amigo, és um sábio.
Está ali uma gaja agarrada a um gajo e não para de olhar para aqui, piscou-me o olho. Isto está tudo perdido. Só dá para rir. Vou buscar mais uma, queres? A próxima é oferta. Tenho que beber mais uma. Tenho aqui os cartões para escolher uma canção. Embora, que se lixe.
O meu amigo disse-me que aquela tipa do olhar interessante, quer conhecer-me. Ela a final já não é assim tão interessante, não achas? Olha estão a chamar-nos para irmos cantar, vamos? Gostaste de cantar? Escolhi a música ideal, não foi. Olha ela chama-se Ana. Eu já venho, está bem?
A Ana está a convidar-nos para irmos a outro bar, queres ir? Ficamos por cá. Vou-me só despedir delas. Amigo, é por estas noites que gosto da vida que tenho. Ainda não falei o nome dela, já viste?
Os amigos
Há 3 tipos de amigos.
Os amigos do desabafo, os “amigos” e os amigos dos copos.
Os amigos do desabafo são aqueles que falamos, falamos e eles calados acenam com a cabeça. Em algumas situações terminam o diálogo com um simples “pois é” ou então “eu já te tinha dito”. São os típicos amigos que dizem uma coisa e porventura devem pensar outras. Devem imaginar que é sempre a mesma coisa. Eu nunca mudo. Estão fartos disto ou um mais grave outra vez. Estes meus amigos nunca me falham. Duram anos e é para continuar. Geralmente, acabamos por conhece-los, em idade adulta. Por uma simples razão, quando somos putos não temos problemas.
Os “amigos”, são aqueles que temos menos tempo para eles e que melhor nos conhecem. Basta um olhar. Uma palavra. Um gesto. Geralmente já os conhecemos desde que nascemos. Já partilhámos uma vida. Já fizemos tudo. Obviamente que os “amigos” não sabem que existem os amigos de desabafo. Obviamente não se desabafa com eles apenas por vergonha. Com uma vergonha pura de eles pensarem que nós nunca mudamos, nem nunca iremos mudar. Torna-se claro que os “amigos” já não tem tempo para partilhar os copos. Evoluíram, mas o que não significa que seja no bom sentido.
Amigos dos copos. Sabemos apenas que estão ali por uma razão qualquer. Geralmente tem os mesmos gostos que eu tenho. Eu, reconheço, que não sou muito exigente. Não sei, nem quero, saber o que fazem, quais são os problemas, o nome, nada. Apenas és escolhido pelo cheiro, ou pelo aspecto. Geralmente não és nada daquilo que mostras. Acabamos a noite num local qualquer acompanhados e bêbados a gozar com tudo o que se mexe. Acaba-se por gostar de passar incógnito nas noites dos copos. Lembramo-nos uns dos outros nas noites de festa.
Livre e louco, como eu.
Os meus dias são mais cinzentos do que os teus
Tanto te oiço a falar em amor. Tanto te vejo a discutir o amor. O que é o amor? O que se faz por amor? O que ele, o amor, nos motiva, cativa e explora. Porra para o amor. O que é o amor sem os corpos de carne que o rodeiam. Temos uma tendência nociva de espiritualizar o amor e empobrecer uns corpos aquosos. O amor é aquilo que persegues. Tu sabes.
Tentamos dar um rosto a esse, vulgo, amor. Para depois matá-lo.
Sim.
Para depois matá-lo, com todas as forças que consegues reunir. Toda a vontade que o sentes.
Amor é desistir de tudo em nome de um vazio que se quer preencher. Eu nunca te vi desistir de nada por ele. Ou em nome dele.
Acredita que os meus dias são mais cinzentos do que os teus. Eu já não acredito nesse amor que tanto falas. Já não vivo esse amor que tanto inventas. Eu vendi o amor em troca da paz do meu presente. Acredita que é difícil torná-lo dispensável. Acredita, amor.
Eu não quero ser assassinado por um crime qualquer em nome do teu descanso. Não quero ser um ponto de passagem. Já não tenho forças para viver esse pesadelo.
Acredita que os meus dias são mais cinzentos do que os teus. Meu amor.
Café e cigarros!
Ele já a tinha visto por ali. Ela já tinha reparado nele. E assim se apresentaram, entre olhares. Ele geralmente chegava primeiro do que ela. Ela depois sentava-se à sua frente evitando trocar olhares perigosos. Entre um café e um cigarro entretinham-se num olhar.
Ela segura. Ele impróprio. Trocava as pernas, sentava-se, levantava-se na tentativa de ela reparar nele, como se fosse necessário. Ela sorria. Ela acendia mais um cigarro entregue a um vazio.
Ela geralmente usa vestidos, mostrando as suas pernas bem feitas, coloridos a tentar mostrar uma vida que já morreu, há um tempo atrás. Cabelo comprido, castanho claro, bem tratado denotando bastante cuidado com o seu aspecto. O olhar, esse olhar que ele tentava cativar, era intrigante. Sem tecer grandes comentários era temerário. Daqueles olhares de quem vê coisas pequenas. As pessoas demasiado calmas e inexpressivas assustam. Não se podem controlar.
Ele não é bem assim. Demasiado baldas e descontraído para ter compromissos com o seu aspecto. Olhos claros, pele morena e o cabelo sempre despenteado. Aliás o cabelo é aquilo que lhe dá mais luta, entre o pente e o gel. Geralmente de sandálias para pisar o asfalto, calças bem largas e leves e uma t-shirt. Ele olhava-a como se olha uma presa. Ela calada.
Depois de mais um café e uns cigarros seguiam o seu caminho, na saída deleitavam-se com um último olhar e um ligeiro sorriso. Hoje não! Hoje ele vai segui-la, quer ver onde ela vai, a curiosidade. Ela saiu. Ele saiu. Ela entrou num carro escuro. Ele entra num carro cinzento. Ela olha. Ele esconde-se de si.
A rua é larga que morre num stop. A obrigação de parar. Algo mais importante do que nós. E assim seguiram os dois. Ela à frente e ele logo ali atrás. Ela olhando pelo espelho. Ele fingindo que não reparava. Os óculos de sol sempre foram bons amigos. Pararam num semáforo. Demoraram tempo a observar. Demoraram a viver.
No fundo de uma rua ela virou à direita. Ele virou à esquerda. Ela disse adeus. Ele sorriu. Amanhã quando se virem entre o café e os cigarros vai ser engraçado....
O Livro
Trimmmmmmmmmmm
-Olá
.-Oferece-me um livro.
-Um livro.
-Sim. Ajuda-me.
-Amor de Mítia.
-Amor de Nivia?
-Não Mítia.
-Não percebo.
-Eme, i, tê, i, a. Mítia.
-É de quem?
-Eric Bunin. Eu não sei se é Eric. Ele é Russo. É muito bom.
-Adeus.
-Ok, adeus.
Continuamos nisto. Agora vou-te ler e aprender os teus gostos.
A minha sala fica mais iluminada contigo
Apareceste-me em casa. Não te convidei. Não tinha ainda falado contigo. Já te tinha visto, por aí. Recordo-me dos teus gestos. Recordo-me do teu olhar e assim te sentaste e por ali ficaste.
Elogiaste a minha casa. De como era grande. Enquanto eu tirava o casaco, cansado. Gostavas das cores. O branco dá um aspecto de lavado, dizias. Contrastava com o silêncio e a solidão. Mostrei-te o mundo lá fora, da minha varanda. Procuraste a lua. O meu carro cinzento, jazia lá em baixo.
Liguei a televisão. Procurei um canal qualquer de notícias. Fui tirar dois cafés. Perguntei se o querias. Aceitaste.
Reconheço que a minha sala fica mais iluminada contigo.
Falaste. Falaste demasiado. Houve alturas que já não te ouvia ou compreendia. Apenas acenava e consentia as tuas ideias. Demasiadas perdidas. Contaste-me os teus medos. Ambições. Desejos. Eu não disse uma palavra. Nunca digo. Esse será sempre o meu mal.
Nem uma.
Eles
Ele encontrou-a num café. Ela viu-o. Ela não se mexeu. Ele, aparentando uma calma celestial, avançou. Pediu um café. Ela imóvel. Encostados a um balcão evitando-se estender num olhar. Ou perderem-se num olhar. Eles, já foram tanto. Agora o nada é exuberante. O que ela pensará. É com adoçante, diz ele. Ela segue-o pelo espelho. E assim continuam.
Ele, recorda-se do tempo em que eram um. Das juras e promessas. O orgulho de estar a seu lado. Das noites em que viam as luzes de Lisboa a andar de baloiço. Das noites em que partilhavam gelados. Dos casacos que trocavam. Das músicas adquiridas, sem direito de autor. De entrarem a pouco e pouco pelo mundo oposto. De sorrirem sem esforço. Mas acabou. O tempo mata tudo. O tempo.
Eles continuavam presos ao chão. Demasiado.
-Olá.
-Olá.
-Como estás?
-Bem, e tu?
-Vivo.
-Tudo tem um preço.
-Qual é o teu?
Ele, recorda-se do tempo em que eram um. Das juras e promessas. O orgulho de estar a seu lado. Das noites em que viam as luzes de Lisboa a andar de baloiço. Das noites em que partilhavam gelados. Dos casacos que trocavam. Das músicas adquiridas, sem direito de autor. De entrarem a pouco e pouco pelo mundo oposto. De sorrirem sem esforço. Mas acabou. O tempo mata tudo. O tempo.
Eles continuavam presos ao chão. Demasiado.
-Olá.
-Olá.
-Como estás?
-Bem, e tu?
-Vivo.
-Tudo tem um preço.
-Qual é o teu?
Sempre do mesmo a todas as horas
Hoje, não procurei o ser fácil. Profundamente fugi da tua vida. Hoje, quis ser mais dificil do que sou. Infelizmente, falhei. Vivi ao som de um filme, a preto e branco. Um Casablanca urbano. Há sempre mais alguém do que tu queres e precisas. Vou ter que começar de novo, uma vez mais. Já não consigo lidar com a tua distância. Já não consigo respirar com a minha ausência. Já não consigo viver assim. Perfeitamente perdido. Dantes era tão fácil. Era sempre o mesmo a todas as horas. Isso cansa.
Amanhã, vou-me sentar na praia da minha cidade. Levo o livro que me aconselhaste e um bloco para escrever. Marimbo-me para todas as obrigações de trabalho. Não quero negociar preços nem sistemas, nem reuniões supostamente nevrálgicas. Amanhã, vou tirar a gravata e nem sequer meto gel no cabelo. Vou deixar crescer a barba, pelo menos por um dia. Apenas um ritual para te ler e escrever. Vou-me bronzear ao som da chuva. Ser o mesmo que era a todas as horas.
Tomei estas decisões alicerçadas no meu fracasso omnipresente. Embelezo-me com a cerveja. Enraizo-me em tabaco. Perpétuo-me no silêncio. Enfim serei sempre o mesmo a todas as horas. Um hábito de sobreviver. Espero não desenhar o teu rosto na areia nem escrever mensagens nela. Atirar ao mar umas garrafas com recados, isso já fiz e não deu resultado. Nunca ninguém me respondeu. Vou fazer amizade com uma gaivota. Vou levar peixe crú para lhe dar. Vou ser sempre o mesmo a todas as horas.
Vou acabar o primeiro trecho do meu livro. Esquecer as ideias estúpidas que fui defendendo. Juntar-me a movimentos em prol do meu silêncio. Estacionar o carro no vazio. È sempre o mesmo, a todas as horas.
Vou falar. Há muito tempo que não falo. Há muito tempo que não tenho ninguém para falar. Estou farto das conversas combinadas. As conversas sobre o tempo. De não quere falar mais do que isso. Agora compreendo os teus silêncios. Serão sempre os mesmos a todas as horas.
Sou aquilo que queria ser. Já não sou dono de tudo o que é meu. Se quiseres partir, como reclamas, podes ir. Nunca, nunca te irei prender a não ser nos meus sonhos.
Amanhã, vou-me sentar na praia da minha cidade. Levo o livro que me aconselhaste e um bloco para escrever. Marimbo-me para todas as obrigações de trabalho. Não quero negociar preços nem sistemas, nem reuniões supostamente nevrálgicas. Amanhã, vou tirar a gravata e nem sequer meto gel no cabelo. Vou deixar crescer a barba, pelo menos por um dia. Apenas um ritual para te ler e escrever. Vou-me bronzear ao som da chuva. Ser o mesmo que era a todas as horas.
Tomei estas decisões alicerçadas no meu fracasso omnipresente. Embelezo-me com a cerveja. Enraizo-me em tabaco. Perpétuo-me no silêncio. Enfim serei sempre o mesmo a todas as horas. Um hábito de sobreviver. Espero não desenhar o teu rosto na areia nem escrever mensagens nela. Atirar ao mar umas garrafas com recados, isso já fiz e não deu resultado. Nunca ninguém me respondeu. Vou fazer amizade com uma gaivota. Vou levar peixe crú para lhe dar. Vou ser sempre o mesmo a todas as horas.
Vou acabar o primeiro trecho do meu livro. Esquecer as ideias estúpidas que fui defendendo. Juntar-me a movimentos em prol do meu silêncio. Estacionar o carro no vazio. È sempre o mesmo, a todas as horas.
Vou falar. Há muito tempo que não falo. Há muito tempo que não tenho ninguém para falar. Estou farto das conversas combinadas. As conversas sobre o tempo. De não quere falar mais do que isso. Agora compreendo os teus silêncios. Serão sempre os mesmos a todas as horas.
Sou aquilo que queria ser. Já não sou dono de tudo o que é meu. Se quiseres partir, como reclamas, podes ir. Nunca, nunca te irei prender a não ser nos meus sonhos.
Tu és
Tu és importante para mim. O dia só tem sentido quando te oiço. O cansaço exasperante de um suor qualquer. Quando te oiço......
Quando te oiço tudo muda. Muda o tom da minha vóz. O bater do meu coração. A alma apoquenta-me. A boca fica seca. O corpo treme. A mão já não segura o telemóvel. Os olhos brilham, mudam de cor. Um sorriso ilude-me. Tudo tem sentido. Torno-me uno. Indivisível.
A paz que me ofereces, sem te ver. O amor que me transmites, sem me tocar. As vontades que libertas, sem olhares. As carícias que trocamos, numa vóz. Quando tu falas, eu calo-me e contigo passa-se o mesmo. O teu silêncio é assustador.
Tornas o meu caos num paraíso perfumado.
Quando te oiço tudo muda. Muda o tom da minha vóz. O bater do meu coração. A alma apoquenta-me. A boca fica seca. O corpo treme. A mão já não segura o telemóvel. Os olhos brilham, mudam de cor. Um sorriso ilude-me. Tudo tem sentido. Torno-me uno. Indivisível.
A paz que me ofereces, sem te ver. O amor que me transmites, sem me tocar. As vontades que libertas, sem olhares. As carícias que trocamos, numa vóz. Quando tu falas, eu calo-me e contigo passa-se o mesmo. O teu silêncio é assustador.
Tornas o meu caos num paraíso perfumado.
Com a cabeça entre as orelhas
Acendo mais um cigarro. Procuro frases feitas em vão. Tento escrever aquilo que não se transcreve. Ponho a cinza no cinzeiro. Estou sozinho. Com a cabeça entre as orelhas.
Tive inveja de quem te acompanhou. Reconheço que fui mortal. Tive ciumes. Uma ciumeira ridicúla. Completamente desfeita em ilusões. Merda, tive ciumes. Quando olhei as tuas fotos, de ruas e aeroportos que bem conheço. Aquelas ruas ou calles como eles chamam. Lo Puerto Olímpico. La Calle Inglesa. Sagrada família. Enfim, tive ciumes.
Já estive aí diversas vezes, vou ter que ir aí próximamente. Ando a adiar. Sempre sem ti. E sei que a próxima vez será sem ti. Correr aquelas ruas isoladas e cinzentas sozinho. Dormir num quarto de hótel com um portátil como companhia. Vestir o fato de manhã para defender teses imaginárias. Esperar em aeroportos pelo embarque. Os aviões da TAP andam sempre atrasados. Refugiar-me em zonas minúsculas para fumar um cigarro. Telefonar a toda gente conhecida para treinar o Português. Sentir-me Português numa terra universal. Sempre foi assim. A primeira véz que fui à Sagrada Família, tentei subir as escadas de uma das torres. Descobri que é impossível. Quem me ajudou foi um casal de Suecos que me amparou na descida. Estive no 2º patamar, na varanda, a fumar um cigarro. O que vale é que o Inglês é universal. Se tivesse uma bandeira Portuguesa pregava-a naquele quintal. Isto foi sem ti.
Meditando no essencial e olhando para nós numa forma ambígua reconheço que sou demasiado frágil para ti. Ainda falo em nós. Será sempre o nós. Nós que conseguimos tanto com tão pouco. Nós que estivemos tão perto e nos afastámos. Nós. O eterno nós. Onde tu e eu ou eu e tu elaboramos o plano abstracto de um amor perdido em nós. Seremos tão "destintos" mas verdadeiros. Merda tive ciumes.
Hoy hay intentado olvidar.
Agora, mais calmo. Muito mais calmo. Era só para te lembrar que o nós existe, assim. Depende de ti e de mim para alterar isso.
Como estás? Bem, médio-mau, médio, mau. Conta-me. Tenho tempo.
Tive inveja de quem te acompanhou. Reconheço que fui mortal. Tive ciumes. Uma ciumeira ridicúla. Completamente desfeita em ilusões. Merda, tive ciumes. Quando olhei as tuas fotos, de ruas e aeroportos que bem conheço. Aquelas ruas ou calles como eles chamam. Lo Puerto Olímpico. La Calle Inglesa. Sagrada família. Enfim, tive ciumes.
Já estive aí diversas vezes, vou ter que ir aí próximamente. Ando a adiar. Sempre sem ti. E sei que a próxima vez será sem ti. Correr aquelas ruas isoladas e cinzentas sozinho. Dormir num quarto de hótel com um portátil como companhia. Vestir o fato de manhã para defender teses imaginárias. Esperar em aeroportos pelo embarque. Os aviões da TAP andam sempre atrasados. Refugiar-me em zonas minúsculas para fumar um cigarro. Telefonar a toda gente conhecida para treinar o Português. Sentir-me Português numa terra universal. Sempre foi assim. A primeira véz que fui à Sagrada Família, tentei subir as escadas de uma das torres. Descobri que é impossível. Quem me ajudou foi um casal de Suecos que me amparou na descida. Estive no 2º patamar, na varanda, a fumar um cigarro. O que vale é que o Inglês é universal. Se tivesse uma bandeira Portuguesa pregava-a naquele quintal. Isto foi sem ti.
Meditando no essencial e olhando para nós numa forma ambígua reconheço que sou demasiado frágil para ti. Ainda falo em nós. Será sempre o nós. Nós que conseguimos tanto com tão pouco. Nós que estivemos tão perto e nos afastámos. Nós. O eterno nós. Onde tu e eu ou eu e tu elaboramos o plano abstracto de um amor perdido em nós. Seremos tão "destintos" mas verdadeiros. Merda tive ciumes.
Hoy hay intentado olvidar.
Agora, mais calmo. Muito mais calmo. Era só para te lembrar que o nós existe, assim. Depende de ti e de mim para alterar isso.
Como estás? Bem, médio-mau, médio, mau. Conta-me. Tenho tempo.
Quando as palavras faltam o olhar perdura
Agora não posso. Disse ela com um ar grave e sério. Numa, das muitas, tentativas de ser respeitada. O tempo passa. O tempo passa por eles. Ela virou-se. Ele ficou. Eles ficaram tão perto. Nos escombros fica um olhar. Quando as palavras faltam o olhar perdura. Comunicar por um olhar.
E assim se esgotam.
Ele encontrou-a. Ela já não tem tempo. Ela já não pode esperar. Ele espera. Ele pediu. Ela negou. Ele cerrou as mãos. Ele calou-se. Entrou no carro e seguiu viagem. Ligou a música. Gritou com essa música, aquela música que lhe dizia tanto. Ela gritava. Ele não ouvia. Olhou pela janela e viu o seu olhar grave e sério.
E assim se esgotam.
Quando as palavras faltam o olhar perdura!
E assim se esgotam.
Ele encontrou-a. Ela já não tem tempo. Ela já não pode esperar. Ele espera. Ele pediu. Ela negou. Ele cerrou as mãos. Ele calou-se. Entrou no carro e seguiu viagem. Ligou a música. Gritou com essa música, aquela música que lhe dizia tanto. Ela gritava. Ele não ouvia. Olhou pela janela e viu o seu olhar grave e sério.
E assim se esgotam.
Quando as palavras faltam o olhar perdura!
Inércia
Eu não quero ser nada de relevante. Quero ficar aqui. Aqui. Aqui, preso ao meu silêncio e encostado na minha inércia. Esta inércia que de tão calma tornou-se um bem estar. Ouvem o meu silêncio. Eu consigo. E nele eu me entrego.
O que faço nos meus fins de semana? Espero que o tempo passe, encosto-me na minha solidão benigna e espero. Espero que o tempo me preencha. Espero que o tempo me convide a ficar em mim. Eu fico.
O que faço nos meus fins de semana? Espero que o tempo passe, encosto-me na minha solidão benigna e espero. Espero que o tempo me preencha. Espero que o tempo me convide a ficar em mim. Eu fico.
O Salto
Ela.....
-Ele entrou-me pela janela do meu quarto.
-Entrou. Como foi possível?
-Entrou, agarrou no parapeito e com aquelas botas monstruosas começou a trepar por ali acima.
-Ele é doido. Foste tu que lhe pediste?
-Não. Vinha com uns fones nos ouvidos. Falei para ele e nunca me respondeu.
-Não disse nada?
-Nem uma palavra. Nada. Bateram-me na janela. Abri. Estava a chover. Estava ele especado diante da minha janela. Perguntei-lhe o que queria. Disse-lhe que tinha que se ir embora e ele nada.
-O que tu foste arranjar.
-Depois como te disse, entrou.
-O que ele fez?
-Deu-me um beijo e foi-se embora.
-Da mesma maneira?
-Sim, sem dizer uma palavra. Saltou a janela. Perdeu-se na chuva.
-Até tem o seu encanto. Nunca me fizeram tal coisa. Gostava que me acontecesse.
-Achas? A nossa relação sempre foi assim. Baseada em loucuras. Ele só veio aqui para provar que é capaz de fazer o que ele quer. Pretende mostrar que é diferente. Até tem piada mas depois chateia.
-Ele deve sentir alguma coisa por ti?
-Os sentimentos perdem o seu valor com a idade. Não achas?
-Gostaste do beijo?
-Foi lindo.
______________________________________________________
Ele....
-Entraste-lhe pela janela?
-Claro.
-Tu és doido.
-Não. Sou Urbano.
-Qual é o teu objectivo?
-Mostrar a ela que faço o quero, quando eu quiser e me apetecer. Ela não tem o direito de desaparecer sem mais nem menos. Mostrar a ela que jamais irá encontrar quem lhe faça isto. Uma loucura legítima nas porporções adequadas.
-Ela deixou-te fazer isso? Não te disse nada?
-Não ouvi nada. Tinha os fones e ia a ouvir “Pearl Jam”, tinha que gritar muito alto.
-Disseste alguma coisa a ela?
-Nada, entrei e roubei-lhe um beijo. Fui-me embora.
-Tanto esforço para um beijo?
-Assim é que tem gozo. Ela também aceitou o beijo. Eu sei disso e ela sabe disso.
-Sentes alguma coisa por ela?
-Sinto tudo o que não quero sentir. Só sei que ela não tem o direito de desaparecer e abandonar-me. É sempre o mesmo a sofrer, estou farto disto. Este beijo fica para sempre. Aliás, ficamos para sempre
-Ele entrou-me pela janela do meu quarto.
-Entrou. Como foi possível?
-Entrou, agarrou no parapeito e com aquelas botas monstruosas começou a trepar por ali acima.
-Ele é doido. Foste tu que lhe pediste?
-Não. Vinha com uns fones nos ouvidos. Falei para ele e nunca me respondeu.
-Não disse nada?
-Nem uma palavra. Nada. Bateram-me na janela. Abri. Estava a chover. Estava ele especado diante da minha janela. Perguntei-lhe o que queria. Disse-lhe que tinha que se ir embora e ele nada.
-O que tu foste arranjar.
-Depois como te disse, entrou.
-O que ele fez?
-Deu-me um beijo e foi-se embora.
-Da mesma maneira?
-Sim, sem dizer uma palavra. Saltou a janela. Perdeu-se na chuva.
-Até tem o seu encanto. Nunca me fizeram tal coisa. Gostava que me acontecesse.
-Achas? A nossa relação sempre foi assim. Baseada em loucuras. Ele só veio aqui para provar que é capaz de fazer o que ele quer. Pretende mostrar que é diferente. Até tem piada mas depois chateia.
-Ele deve sentir alguma coisa por ti?
-Os sentimentos perdem o seu valor com a idade. Não achas?
-Gostaste do beijo?
-Foi lindo.
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Ele....
-Entraste-lhe pela janela?
-Claro.
-Tu és doido.
-Não. Sou Urbano.
-Qual é o teu objectivo?
-Mostrar a ela que faço o quero, quando eu quiser e me apetecer. Ela não tem o direito de desaparecer sem mais nem menos. Mostrar a ela que jamais irá encontrar quem lhe faça isto. Uma loucura legítima nas porporções adequadas.
-Ela deixou-te fazer isso? Não te disse nada?
-Não ouvi nada. Tinha os fones e ia a ouvir “Pearl Jam”, tinha que gritar muito alto.
-Disseste alguma coisa a ela?
-Nada, entrei e roubei-lhe um beijo. Fui-me embora.
-Tanto esforço para um beijo?
-Assim é que tem gozo. Ela também aceitou o beijo. Eu sei disso e ela sabe disso.
-Sentes alguma coisa por ela?
-Sinto tudo o que não quero sentir. Só sei que ela não tem o direito de desaparecer e abandonar-me. É sempre o mesmo a sofrer, estou farto disto. Este beijo fica para sempre. Aliás, ficamos para sempre
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