quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Acordo de abandono


Viver contigo chateia. Viver a teu lado é exasperante. Viver sem o meu vazio é incomodativo. Viver a tua vida cansa. Viver por viver. Sento-me a ver se isto passa.

O meu carro é cinzento.

Moro numa casa que cresceu com o tempo. Os quartos são enormes. Passo a maior parte do tempo no mesmo sítio. Existem quartos onde eu nunca vou mas já os mobilei. Saquei umas ideias de umas revistas de moda. Ficou engraçado. Terias gostado. Esta casa cada vez é mais fria. Agora, sem ti, divirto-me a dormir em todas as camas. Sabes, o meu cão continua a ladrar. Eu gosto. Assim, por vezes, os vizinhos sabem que existe vida. A casa está à minha imagem. Preto e branco. Fria. Vazia. Isolada.

Gostaria de ver como está a tua.

De que cor é o teu carro?

Parti os espelhos que colocastes. Não suportava ter que me ver constantemente neles. Cada vez gosto menos do que vejo. Nunca gostei de mim. Gostava mais de ti. As imagens constantes deste meu desespero. Já não me lembro porque partiste. Por vezes recebo umas chamadas a horas impróprias. Ninguém fala. Penso que és tu. Nelas já gritei. Já disse que te amava. Já disse que tinha desistido de ser mais forte. Depois deito-me.

Qual é o carro que compraste?

Nunca mais houve pessoas, aqui. Suavemente foram desaparecendo. Suavemente eu fiquei. Os amigos, eram teus. Levaste-me tudo. Ficaram as memórias. Tudo o que reclamava, não faço. Tudo o que exigia, marimbei-me. Depois do tempo, as discussões perdem o direito de permanecer vivas e com razão. Tenho saudades de te pegar ao colo. Afagar as tuas lágrimas. Fazer parte da tua vida. Ajudar-te com os sacos das compras. Arranjar o varão do cortinado. Pintar as paredes porque o querias. Mudar o óleo ao teu carro.

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