quinta-feira, 24 de abril de 2014

Esta noite



Esta noite vou-me perder. Vou-me perder por aí. Com uma esperança ridícula de ser encontrado. Uma vez mais. Como sempre. Dentro de mim.

As fotografias são cruéis. Captam o momento. Captam as sensações dos momentos. Momentos. Com o passar dos tempos já não nos reconhecemos ou não nos dizem nada. Tudo passa. O tempo mata tudo. Tudo. Até o corpo que nos envolve, lentamente.

O abismo. É negro e esta noite vou-me perder. Vou-me perder sem ti ou sem outra coisa qualquer. Enquanto escrevo sentado na minha cadeira preta neste escritório de divisórias vou contar enquanto espero pela tua resposta. Como faço sempre. Vou contar até 20. Dar-te tempo.

1, 2, 3, 4, mais devagar, 5, 6, 7, ou seria 6.

Descontaminação


Boa noite nós somos os Descontaminação, viemos para descontaminar as vossas almas!

Dizia ele agarrado ao micro enquanto dava uns toques no baixo. Eram livres. Já estavam prontos mais que preparados. As musicas estavam preparadas. Começávamos com o eterno "Maria João" passávamos pelo "Sóbrio", nunca esquecendo o "Diabo Apostólico"e entre outras acabávamos no "Tanto Faz". Tanto Faz? Eramos livre. Ah.

Eramos 5 ficámos 4.

O Pedro tocava na guitarra, o Sérgio dava-lhe na bateria, o Rui tripava nas teclas e eu amava o baixo. Eis os Descontaminação. O som era o mais puro possível, as letras o mais profundo possível. Até tinhamos público. Sério? Sim, desde que na letra falássemos de um amor qualquer. Saíamos da escola íamos a correr para a garagem. De quem era? Ao pé do mar.

Queriamos mudar o mundo. Mudámos o nosso mundo. Muito. Demasiado.

Começámos a perder os ideais. Perdemos a vergonha. Fizemos tudo que não deviamos fazer. Recordo-me das festas animais. Porquê? Era só aí que nos encontrávamos. Falávamos. Prometiamos o que não podiamos. Sempre descontaminados. Eles contaminaram-nos. Nós deixámos. Depois apareceu alguma coisa entre nós. O que foi? Não quero falar disso.

Eramos 5 ficámos 3.

Numa das nossas viagens, perdemos o Pedro. Como? Não quero falar disso. Desistimos aí. O Pedro era mais importante do que a música? O Pedro era um de nós. Nós eramos o Pedro o Pedro eramos nós. Como qualquer outro. Descobrimos que sentiamos a falta de nós. E que nós estavamos a mais uns dos outros. Não achas.

Eramos 5 não ficou nenhum.

Nunca mais nos vimos. Quando nos vimos evitamos olhar. Quando falamos dizemos o essêncial. Neste momento estamos contaminados e já não sentimos falta de nós.

Já passaram uns anos. mas dos 5 ficaram os sonhos.

Beleza

Porra, a tua beleza magoa-me A tua calma impressiona-me A tua cara envergonha-me O teu corpo humilha-me A maneira com fal...