Um outro Natal
Uma área de serviço. GALP. Oito da noite numa véspera da véspera de natal. Três homens encontram-se. Um de cabelo grande outro mais ansioso e ainda o outro mais calmo. Um chega num carro cinzento outro num preto e ainda o outro num azul.
Começam por um cumprimento que termina num abraço. Esta altura do ano dá para isto. Desvaneios controlados. Trocam prendas que estavam escondidas na mala do carro. Entre palavras cordiais a empatia é palpável.
Começaram por pedir um café mas preferiram a cerveja. Entre dois golos começou a conversa.
O homem de cabelo grande pergunta;
- Onde vão passar o natal?
- Na minha casa. Quero ver se consigo estar com as minhas filhas. Este ano comprei-lhes tantas prendas que pensei que era um abuso e já comecei a oferecê-las a outras crianças. Tenho medo que elas pensem que estou a comprá-las.
O mais calmo ouviu e reflectiu.
O de cabelo grande responde.
-Eu só quero imaginar o sorriso da minha quando abrir as prendas. Nas minhas prendas coloquei sempre o meu nome para ela saber que sou eu.
-Hum, vais passar aonde o natal? Desafiou o ansioso.
-Numa pensão qualquer.
Por entre gargalhadas continuam na cerveja e uma bifana a acompanhar.
Finalmente o calmo, falou.
- O problema é nosso. A nossa geração, os que estão a chegar aos “enta”, tem uma tendência suicida para comprar os filhos. Vivemos para uma carreira que se redunda num nada. Talvez num gabinete, um bom carro. Não acham?
Silêncio.
- Quantas noites passámos nós com eles? Insistiu.
Mudaram de assunto. As noites já são negras o suficiente. Amanhã pensam onde passam o natal. Nestas alturas o futebol é sempre um bom tema……..
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