terça-feira, 31 de março de 2015

Take II


Take II

 

Como foi o teu dia?

O caos de sempre, irrita-me a inércia que toma conta e tudo.

Não penses mais nessas coisas. Aproveita o sol. Este tempo está simpático.

Dei-lhe a mão. De facto não é normal em Março haver este calor. As estações estão completamente confusas, passa-se de um frio inóspito para um calor tentador.

Aqui está sempre um vento.

Ela sorriu. Caminhámos por ali, o caminho seguia o mar. Entre a nossa passagem, vimos tudo, tipos a correr, famílias a caminharem. Parece estar na moda o andar de skate e de patins, tipos da minha idade a voltarem a ser crianças. É impagável.

Sabes que te amo, não sabes?

Sei.

Tu não dizes nada?

Não consigo, dá-me um tempo. Hei-de chamar-te amor, confia em mim.

Eles tinham-se conhecido muito longe dali, num aeroporto. No de Barajas. Ainda me recordo. Estava um calor seco, como de Madrid. Eu de fato e já com a gravata torta, sentado na sala de espera. O avião da TAP estava atrasado, é o normal. Raramente consigo que uma viagem venha a tempo e horas, é o meu vicio.

Estava sentado, a mexer no meu computador e a aproveitar a internet. Reparei em ti. Eu sei que não reparaste mas eu reparei em ti. Estavas acompanhada por um tipo. Estavas em pé, a baloiçar o teu cabelo e imensos sorrisos. Reparei que ele por vezes fitava-me. Eu desviava os meus olhos de ti. “Deve ser um casal”, pensei.

Depois reparei que ele já não estava e tinhas-te sentado à minha frente. Posso dizer ainda hoje como ias, apostas? Calças de ganga, um cinto preto e uma camisa branca, desabotoada. Aposto que fizeste aquilo para me provocar. Deixa-me acreditar nisso. Como te amo, agora já te podia dizer porque sofro por ti.

Trocámos olhares, eu nunca me tenho em grande conta, pensei como seria possível, depois de mais um dia de reuniões, com uma temperatura de 35 graus, o suor e o mau cheiro toma-me de assalto. Já sabes que eu sou o despenteado.

Começaste a brincar com o teu telemóvel.

“Vuelo de Madrid- Lisboa” puerta 37”

Seguimos juntos. Fiquei sempre atrás de ti. Estive sempre a olhar para ti.

Um corredor separava-nos. Coincidência? Coloquei os auscultadores, vi um filme. O Skyfall. Sempre me apaixonou a ideia de salvar um mundo e encontrar outro mundo par estacionar e além do mais o James Bond  também usa fato preto, camisa branca.

Ofereceram-nos comida. Aceitei, tu não. Ofereceram-nos bebida. Eu bebi, tu não.

Quando saímos, segui em frente, deixei de te ver.

O aeroporto de Lisboa está todo mudado, nota-se que houve aqui bastante obra. Agora somos obrigados a passar por um mar de gente. Gostava mais como era. Rápido e incisivo. Nunca tive ninguém à minha espera. Há-de haver um dia sentirei a alegria de alguém estar à minha espera. Correr para mim, ou simplesmente o meu nome. Eu costumo ver aquelas reacções de amor ou amizade de um ente querido que espera o outro. Apenas me limito a sair. Nem olho. Não vale a pena. Nisto sinto um toque no meu ombro. Eras tu.

Olhei-te, não saiu nenhuma palavra. Fiquei calado, é o que faço melhor. Consigo ser um óptimo consumidor de silêncios. Os famosos silêncios que se tornam desconfortáveis.

Não me pedes o meu número? Perguntou-me.

Como te chamas?

Susana. Não me pedes o número.

Claro que sim.

Seguimos juntos. Fomos beber um café. Sentámo-nos. Apresentámo-nos. Trocámos ideias. Contei-lhe o básico, a minha sobrevivência generalizada, que fazia parte da geração coca-cola. Vitima de um mal estar permanente mas sem saber a razão de tal coisa. Ela, a Susana, vivia do outro do meu mar. Tinha 2 filhos, notava-se que ela adorava os miúdos. Cada vez que queria falar mais sério, fitava os olhos. Os olhos ainda não percebi de que cor eram. Sofriam mutações consoante a luminosidade. Tinha viajado em trabalho, eu também. E continuámos.

Porque me abordaste?

Nunca mais te veria.

Por vezes encontramos aquela pessoa que nos faz olhar e parar, pensar e se… Que se lixe, hoje não vou perguntar e se. A vida é demasiado curta para isso.

Apaixonei-me. O cabelo dela era forte, mais tarde ela disse-me que representava a força que ela tinha, conseguia ser mais despenteado do que o meu.

Tens o carro aonde?

Está nestas companhias de parqueamento e depois entregam quando chegamos, aliás eles devem estar á minha espera e o teu?

Vêm-me buscar.

Fiquei calado.

Uma amiga, uma vizinha e colega de trabalho.

Depois ligo-te.

Quando quiseres.

De facto, lá estava a sua amiga à espera dela. Abraçaram-se. Ela procurou-me com um olhar, mas já estava escondido, outra das minhas artes.

Saí, no parque das saídas. Tiro um cigarro, passo a mão pelo cabelo, respirei fundo. Pensei. Pensei. Andei de um lado para o outro.

Amarrotei o papel onde tinha “Susana e o número” e deitei fora.

Demasiado perigoso. Não sei lidar com essas coisas, apenas com distância. Quando quero sexo é fácil. Tem que continuar assim, não pode mudar.

Chegaram com o meu carro cinzento.

Até um dia Susana, adorei conhecer-te.

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