Encontrámo-nos em olhares descobrimo-nos nas palavras. As
palavras tem o dom de nos afastar e aproximar, consoante a nossa vontade. Os
olhares apenas invadem, umas vezes aceitamos outras somos indiferentes. Já te
disse que os loucos conhecem-se pelo cheiro. Todas as histórias de amor são
maravilhosas porque são curtas, mas merecem ser vividas, nem que seja para nos
arrependermos disso.
Imagina, encontramo-nos numa rua qualquer, eu de um lado do
asfalto e tu do outro. Eu sei como vais, aposto. Uns jeans gastos, uma t-shirt
clara e um casaco de malha. Cabelo solto e mergulhada nos teus pensamentos. Eu
sou o despenteado. Eu sei que vais baixar o olhar. Sei que vais fazer de conta
que não me vês. Eu sei que te vais desviar. Eu sei todos os teus gestos. Adoro
a tua melancolia. Adoro a tua indiferença e o teu olhar. Eu vou olhar sem que
tu me vejas. Eu vou ver-te até tu me veres. Depois trocamos um olhar. Por segundos.
Seguimos viagem. Sempre foi assim. Sempre será assim. Os loucos conhecem-se
pelo cheiro.
E se? E se te abordasse. E se te perguntasse porque não me
olhas. E se te agarrasse e te roubasse um beijo. E se te dissesse que sei e que
te compreendo. Todas as histórias de amor são maravilhosas porque são breves.
Eu sei que o tempo mata tudo e gasta tudo. Eu sei isso tudo. Nós somos iguais,
não suportamos a banalidade e depressa nos cansamos do amorfo e da exatidão.
Depressa regressamos ao nosso conforto. O nosso conforto é apenas um vazio que
nos habituámos a adorar e compreender. Não conseguimos lidar com o que não controlamos
e assim nos afastamos, tal qual uma estátua gelada.
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